Histórias de Cego 0 – O Retorno
setembro 3, 2013
Liwisgton embarca para a disputa da Copa América de Futebol de 5
setembro 12, 2013

Histórias de Cego 1 – A Primeira esmola a gente nunca esquece

Infelizmente, no inconsciente coletivo, o cego (ou a pessoa com deficiência de um modo geral) ainda é muitas vezes associado à figura do pedinte. E se é verdade que durante muitos séculos a pessoa com deficiência visual sobrevivia a custa de esmolas e mesmo ainda hoje não é tão impossível assim ver cegos tocando seu violão à espera de uns trocados, a imensa maioria trabalha e ganha a vida como qualquer pessoa. Mas às vezes…

Vocês sabem daquelas tempestades, em janeiro, que caem (verão sim outro também) quase todos os dias no final da tarde aqui no Rio? Então, uma delas me pegou no caminho entre a estação de metrô e a minha casa. Felizmente ou não, eu tinha comigo um guarda-chuva.

Confesso que não gosto de guarda-chuvas, não apenas porque parece um equipamento anacrônico, como um visitante da Idade Média (ou numa época em, que o homem já pisou na lua, será que não é im´possível inventar algo um pouquinho mais moderno?) mas principalmente porque ele é todo pontudo, pondo em risco meus olhos (não enxergo, mas mesmo assim eles sentem dor) e o dos demais. Fora que, com a bengala numa mão e o guarda-chuva na outra, me sinto amarrado. Cego, em geral, não gosta de ter as duas mãos ocupadas, a gente se sente sem referência, fora que não tem como segurar no braço de quem te oferece ajuda… Bem, já estou divagando.

Fato é que esse guarda-chuva também não parecia gostar muito de mim. Bastou dar alguns passos com ele que plaft! O vento forte o virou do avesso e o danificou. Quão danificado?

Sinceramente, não sei, porque tendo uma mão no próprio guarda-chuva e outra na bengala, não me restaram dedos para ver o tamanho do estrago. E, mesmo com vento pela cara e mais pingos do que seria normal, prossegui.

Foi aí que a minha sorte começou a virar e um cara jovem veio me ajudar a atravessar a rua; ou o rio, depende do ponto de vista – e do que você está calçando no dia. Como tinha que pegar em seu braço, ele me ofereceu de segurar o meu guarda-chuva-trapo. Aceitei de bom grado, porque é impossível dividir as mãos entre bengala, guarda-chuva e ainda segurar no braço da pessoa. Ele comentou em tom de brincadeira alguma coisa sobre a minha sombrinha estar quebrada. Ri, chegamos ao outro lado da rua, ele me devolveu o guarda-chuva e cada um Eu demorei uns três segundos para notar algo diferente. Pelo cabo, percebi que o cidadão me dera outro guarda-chuva, não o meu. Não é possível que o cara houvesse se enganado na hora de me devolver a minha sombrinha? Será que ele estava mais cego do que eu? E pior, o cara já não estava mais por perto e então não havia modo de desfazer o engano.

Espantado, sem saber o que fazer, pensava em como solucionaria a questão, mas, por sorte (?) havia um carro mal estacionado no caminho e o mesmo cidadão veio me ajudar a livrar-me de mais essa. E então eu lhe disse: “você me deu o seu guarda-chuva em vez do meu”, ao que ele me respondeu: “fica com esse, o teu tá um lixo, eu vou jogar fora isso”.

E assim foi que eu ganhei a primeira esmola da minha vida.

11 Comentários

  1. Milena Hygino disse:

    Que bom que você voltou com o “Histórias de cego”!
    Sobre a “primeira esmola”, adorei o texto (porque você escreve muito bem, de maneira simples e fluida. Parece que estou ouvindo você contar a história…), mas não encarei o guarda-chuva como esmola, com aquele sentido pejorativo, que você mesmo disse no início, vinculado a pedinte. O cara só foi MUITO gente boa contigo! Risos.
    Aguardo mais histórias!
    Beijos

  2. João Pedro Borsani disse:

    Muito legal o texto, Marcos. Também nçao encarei o guarda-chuva como esmola, eu mesmo sempre que tenho a oportunidade tento fazer esse tipo de gentilezas com as pessoas. Um abraço!

  3. Eduardo Scofano disse:

    Tem certeza de que você não estava vestido como um morador de rua?

  4. Ricardo Baptista disse:

    Marcos, não esquece de contar a história da apresentação do Romário no America com aquele pedido do Anderson no DEO.

  5. Esta é a única esmola que existe, Marcos! Esmola vem do grego “eleêmosyne”, derivado de “eleêmon”, que significa misericordioso; este, por fim, origina de “eleos”, misericórdia. A misericórdia é o ato de ter compaixão de coração. Ou seja, feliz daquele que recebe a esmola e -diga-se de passagem; entendendo o verdadeiro sentido da palavra esmola, percebemos que até rico é passível de receber esmola!

  6. Jocemar Junior disse:

    Parabéns, meu cunhado!
    História engraçada, como sempre você conta!!
    Um abraço!

  7. Ronaldo Carvalho Pereira da Silva disse:

    hahahahahahahahaha

    Vc deve ter um manancial de estórias.
    Aguardando a próxima.

    Abs.

  8. Ana Lima disse:

    Não foi esmola, hermano… foi gentileza. Assim como ceder o lugar no ônibus pra um idoso. É que alguém precisa mais daquilo que você.

    Beijos

  9. […] ando na rua a segurar a bengala numa mão e uma sacola qualquer na outra. O mesmo vale para os guarda-chuvas, acho que um dos objetos que encabeçam a minha lista de desafetos. Sei lá, é como se as mãos […]

  10. Carla disse:

    Isso não é esmola, é gentileza, coisa rara nos dias de hoje!! Foi um dia de sorte, vai.

  11. […] ando na rua a segurar a bengala numa mão e uma sacola qualquer na outra. O mesmo vale para os guarda-chuvas, acho que um dos objetos que encabeçam a minha lista de desafetos. Sei lá, é como se as mãos […]

Deixe uma resposta para Eduardo Scofano Cancelar resposta

Curta vocë também a Urece no Facebook!