Equipe Urece exibe medalha de prata
Urece faz melhor campanha da história no Brasileirão de Fut 5
novembro 10, 2013
Biconvocado
novembro 19, 2013

Histórias de Cego 9 – O Patinho Feio da Acessibilidade

piso_tatil_03

 

Sinceramente, o que primeiro te vem à mente quando você ouve falar em acessibilidade? Rampas, cadeiras de roda, barras de segurança? Talvez banheiros acessíveis e elevadores com botões escritos em braille! E do piso podotátil, você lembra? Não precisa ficar constrangido, porque muita gente boa do ramo também não. Ou pelo menos não com o devido valor.

 

Para quem não está familiarizado com a terminologia, piso podotátil (ou piso tátil para os mais íntimos) é o nome que se dá àquela faixa diferenciada, com destaque de relevo e de cor em relação ao chão ao redor, que existe em alguns ambientes, principalmente os lugares fechados e que serve para a orientação das pessoas com deficiência visual. Por ser um relevo acima do chão, este tipo de piso pode ser sentido pela ponta de nossas bengalas, indicando assim um determinado caminho.

 

O piso podotátil constitui-se por uma sucessão de placas que, coladas umas após às outras, vão formando espéce de trilhas acessíveis às pessoas com deficiência visual. Existem os pisos direcionais, sob a forma de segmentos de reta e que indicam caminho livre; e os pisos de alerta, formados por diversas bolinhas, que estão ali para indicar que há algum obstáculo ou que você simplesmente tem a opção de mudar de direção e seguir por uma outra trilha tátil, por assim dizer.

 

O melhor lugar para se observar isso é nas estações do metrô, ainda que em alguns lugares as placas que constituem o piso tátil já estejam quebradas e em outros elas conduzam a pilastras. Mas, ainda assim, são bem úteis!

 

Eu sei, a utilização do piso tátil é uma questão bem polêmica. Polêmica porque ele sozinho não dá conta da complexa tarefa de tornar um ambiente acessível para pessoas com deficiência visual. Isso porque o piso tátil cumpre apenas uma função bem específica. Eu costumo compará-lo a uma autoestrada. Assim como um automóvel trafegando numa BR dessas da vida, a pessoa que se orienta pelo piso tátil sabe que ela pode andar tranquilamente, que não vai encontrar nenhum obstáculo em seu caminho, pelo menos na teoria. Mas o piso tátil é só a pista dessa estrada; sem outros recursos de acessibilidade, é como se trafegássemos sem placas de sinalização. E assim não sabemos para onde estamos indo.

 

Por conta disso, aqueles especialistas que são resistentes ao uso do piso tátil alegam que ele confunde em vez de ajudar. Assumindo que o excesso de piso tátil possa causar uma certa confusão na medida em que ele por si só não indica para onde se está indo, seria a sua supressão a solução do problema? Não é por falta de placas que vamos deixar de construir estradas, certo?

 

Ontem mesmo, tendo eu desembarcado na estação Carioca do metrô, em um horário em que a plataforma estava bem vazia, me pus a esperar que alguma ajuda caísse do céu, ou do trilho, vai saber. Caminhei alguns passos para me afastar da faixa amarela, a tal garantia da minha segurança, e fiquei ali, movendo a bengala e esperando algo acontecer. O silêncio era total, nem aqueles bucólicos passarinhos… Até que ouvi um inconfundível farfalhar de chaves, bem baixinho é verdade, mas o suficiente para que alguém como eu, a necessitar de ajuda, percebesse. O barulhinho foi aumentando, a pessoa vinha na minha direção; até sorri. Antes da hora, é verdade, porque o cidadão, sei lá se passageiro ou se funcionário do metrô, passou do meu lado e fingiu que não me viu. Éramos somente eu e ele na plataforma, e ele preferiu deixar-me à própria sorte.

 

Sorte que a plataforma em questão tem piso tátil, de modo que, cansado de esperar o inesperável, segui meu próprio caminho. Virei à esquerda e depois à direita e, quando me dei conta de que estava diante da roleta, experimentei uma sensação de vitória que só aqueles que dependem dos outros para jornadas simples como esta podem sentir. Passei a roleta, subi uma rampona em curva e cheguei ao rol principal da estação, tudo isso sozinho, graças ao piso tátil que é verdade não me disse para onde eu iria, mas me ajudou a ter a confiança necessária de que eu seguia em local seguro e que não cairia na linha do metrô. Sem ele, possivelmente, eu estaria na plataforma até agora. Sorte não, acessibilidade mesmo!

 

Além da sua função primordial, que é orientar as pessoas com deficiência visual, o piso podotátil cumpre um outro papel, digamos assim, mais social, na falta de uma palavra melhor: ele chama a atenção para as especificidades de um grupo de cidadãos que muitas vezes passa por invisível. Quantas pessoas nunca tinham pensado na existência de um cego e por conseguinte em suas necessidades até ver aquelas estranhas e aparentemente inúteis faixas no meio de seu corre-corre em alguma estação de metrô? Só de estarem lá, eles já estão gerando transformação.

 

Não… Calma! Claro que eu não estou defendendo o piso tátil como a última solução em termos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. Aliás, neste quesito, ainda estamos engatinhando; e eu acredito que o futuro disso tenha mais a ver com tecnologia (e todas as portas que ela vem nos abrindo) do que com placas de piso diferenciado afixadas aos chãos por aí. Mas, se o que temos agora é o piso tátil, por mais longe do ideal que possam parecer, por que não utilizá-lo? Garanto uma coisa: é mais igualitário do que partir da premissa que todo o deficiente visual só pode andar acompanhado por alguém.

 

por Marcos Lima

Bengaladas:

 

* Este que vos escreve e principalmente este blog foram temas de reportagem veiculada ontem no programa Jornal da Futura, do Canal Futura. Agradeço ao Márcio Resende e ao Pablo Moura, produtor e repórter, respectivamente, da matéria, que ficou bem legal. Confiram!

 

* Recomentários:

 

– Nicholas, Mário César, Gabriela Nóra, Eduardo, José Américo, Tatiana Brauer: Fico muito feliz com os elogios de vocês, até porque isso significa que vocês leram o texto até o fim. Explico: o relato da semana passada ficou muito maior que os demais, até porque não consegui contá-lo de forma mais sucinta. E, numa época em que muito se resume a 140 caracteres e em que as pessoas estão sempre correndo e sem tempo, fico aliviado de saber que, de alguma forma, acertei a mão.

 

– Mariela: obrigado pelo comentário. Respondendo a tua pergunta, tocar com o pé no solo, quando se está no mar, indica a direção da praia por conta da inclinação do solo. Para onde parece subir, é para onde fica a praia.

 

– “Sua história se desenvolve numa expectativa crescente de tragédia”: e tivemos o primeiro comentário anônimo. Como sei que foi apenas um equívoco, peço, por curioso que sou, que o autor desse comentario se identifique, por favor!!!

7 Comentários

  1. Eduardo disse:

    Já existe algum sistema mais acessível em outros países?

  2. Sua historia se desenvolve numa expectativa crescente de tragédia. Você Está Vivo? Ufa! Você está aqui! Espetacular. disse:

    Meu filho : o primeiro comentário anônimo foi meu. Te Amo. Beijos. Fátima Elisabete.

  3. Gabriella Zubelli disse:

    Sempre muito interessante !!! Fiquei pensando uma coisa: Quando você entra na estação, o piso tátil direciona para uma área específica, um grande retângulo de piso tátil, que ao meu entendimento direciona a um espaço de espera … e então vc entra no vagão. Mas e depois quando vc sai desse vagão o piso tátil da estação que vc desceu “nasce” desse mesmo vagão? Ai, não sei se consegui explicar direito, rs!

  4. […] algumas intoxicações. Para quem pensa que acessibilidade tem a ver apenas com calçadas, rampas, piso tátil e banheiros acessíveis, esta situação mostra que o acesso à informação, desde as mais […]

  5. […] de rampas, banheiros espaçosos e adaptados, pias baixas, elevadores, etc. Eu tentei me guiar pelo piso tátil, mas foi só no final do dia que eu consegui pegar o jeito de como manter as rodas da cadeira sobre […]

  6. […] o quanto nós deficientes visuais estamos vulneráveis nas ruas. E não é apenas pela falta de acessibilidade ou pelas milhares de coisas que encontramos nas calçadas. Me refiro ao fato de dependermos de […]

Deixe uma resposta para Gabriella Zubelli Cancelar resposta

Curta vocë também a Urece no Facebook!