Na Raça!
novembro 5, 2013
Paraguaio Ricardo conduz a bola em destaque, com adversário e todo o fundo descoloridos. Há um carimbo que diz "El Matador de Paraguay", além dos logotipos da Urece, Penalty e Gatorade.
Novamente no fim!
novembro 6, 2013

Histórias de Cego 8 – Apenas uma Questão de Direção

 

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Corria o mês de agosto de 2010. E eu corri para aproveitar promoção, da falecida WebJet, que dava 50% de desconto em passagens para todos os destinos da empresa. Eu e minha namorada, estrangeira e ávida para conhecer o Brasil, escolhemos meio que num impulso. Entre as cidades disponíveis, a melhor parecia ser Natal. Tá certo que era um voo às 06 da manhã com origem no Galeão e escala em Belo Horizonte. Mas, ainda assim, as promoções relâmpago desse tipo parecem ser a única maneira de pessoas normais viajarem pelo Brasil, com esses preços exorbitantes que as companhias aéreas nos cobram. E ainda sem lanche, conseguindo unir de forma harmônica o pior do high cost com o pior do low cost.

E entre os muitos copos de suco de cajá, os quilos de castanha de caju e a caça por miniaturas (sempre!!!), óbvio que aproveitei as praias do Rio Grande do Norte. Eu adoro mar, mas não costumo ir à praia no Rio; entre outros muitos motivos, está o gelo insuportável das águas do litoral carioca. É genético, odeio água fria! Sou daqueles poucos que consideram cachoeiras um suplício! E por isso, com o mar quentinho do Nordeste, me esbaldava diante de uma oportunidade tão única. Tinha a praia só para mim, não precisava me preocupar em esbarrar com os demais banhistas em cada movimento mais brusco. Mergulhava, nadava, pegava jacaré…

Assim, a água quente, o mar calmo sem estar morto, o terreno raso e o próprio bater das ondas, tudo contribuía para uma manhã feliz e romântica. Minha namorada que, muito embora apaixonada pelo mar tinha pouca prática com água salgada, preferiu se divertir na arrebentação. E como para as minhas piruetas eu precisava de um pouco mais de profundidade, na maior parte do tempo estávamos separados por alguns metros. Desenvolvi então com ela um esquema para que eu nunca me perdesse. Sempre que eu, ao levantar de alguma agrura aquática, não soubesse em que direção deveria seguir para encontrá-la, levantava o braço, de modo que ela me gritava. Assim, por sua voz, eu conseguia me orientar e saber ao mesmo tempo onde estava ela e em que direção era a praia.

Tudo certo, tudo muito bonito e divertido… Só que numa das muitas vezes em que avancei um pouquinho mais mar adentro para brincar, fiz repetidamente o giro dentro d’água, me divertindo com a sensação que isso dava. Mas sei lá o que aconteceu, fato é que, quando dei por mim, a água alcançava mais ou menos pelo meu pescoço. E o pior é que o bater do mar, cujas ondas naquela praia vêm de duas direções (óbvio que só soube disso depois) não me deixava tempo suficiente para que o roçar de meus pés contra o fundo pudesse me permitir saber, pela inclinação do terreno, para que lado devia seguir para chegar à praia.

A situação agora exigia alguma atenção. Em busca do meu porto seguro, levantei o braço, mas em vez do chamado da Beatrice só escutei o bater do mar. Onda atrás de onda quebrando contra uma arrebentação que, por conta de elas virem de dois lados, eu não saber onde ficava. Foi aí que eu comecei a me preocupar, principalmente quando, após algumas outras ondas, eu perdi definitivamente o pé. Chamei-a , gritei, mas em vão, ninguém me escutou. Éramos apenas eu e o mar; nós dois a sós, sem nem um pouquinho de terra que, cada vez que eu tentava alcançar, parecia ainda mais inatingível lá embaixo.

O que fazer então? Lógico que a primeira coisa que vêm à mente é nadar. Mas nadar para onde? Entre quatro direções possíveis, apenas uma era a da praia, de modo que eu tinha poucas chances de, num súbito arroubo de intuição, conseguir atinar com a correta. Recorri então à audição, tão amiga quando nos orientamos pelas ruas; atentei-me ao barulho, mas não demorei a perceber que o estrondo das ondas, que na verdade parecia vir de todos os lados, não me deixava nenhuma pista sobre o caminho a seguir.

Eu não estava cansado, meus músculos não me falhavam, eu só não sabia em que direção era a praia; de modo que o mais certo era que eu permanecesse horas e horas à deriva. Pensei imediatamente nos programas de sobrevivência das TVs por assinatura. Lembrei das histórias de pessoas que, após acidentes aéreos ou naufrágios, tiveram que passar horas e dias inteiros no meio do oceano à espera do socorro. Imaginei até uma operação de resgate, com helicóptero e tudo… Eles jogando o cestinho para recolher-me e eu, sem vê-lo, tateando o ar em sua busca. Será como eles fazem para recolher cegos do meio do mar? Será que o cestinho tem algum barulho que me oriente na hora de alcançá-lo?

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Já sem esperanças de ser ouvido por minha namorada na praia e com o pressentimento de que estava a ser arrastado mar adentro pela mesma força que me alijara da costa, pela primeira vez na vida gritei: “socorro!”. E que sensação de desespero, de abandono e de tragédia isso traz! Essa simples frase me fez perceber, como se isso não estivesse claro antes, que minha vida realmente corria perigo. Pela primeira (e até aqui única) vez na vida, pensei que fosse morrer. Lógico que meus apelos em nada resultaram, de maneira que, como desesperado e derradeiro recurso, tentei nadar, experimentando algumas braçadas, numa e outra direção, mas sempre falhando quando, ao final delas, a tênue esperança se dissipava quando eu, por mais que me esforçasse, não conseguia colocar o pé no chão. Não engoli água, não estive a ponto de afogar-me em nenhum momento; o chão apenas não vinha.

Mas esse drama não pertence só a mim. Na beira d’água, a Beatrice se esgoelava na tentativa de fazer-se ouvir por sobre o barulho das ondas. Sem êxito, porém, ela foi caminhando mar adentro, gritando e chamando, logo ela, que viu o mar pela primeira vez aos 14 anos e cujas ocasiões em que fora à praia se podiam contar nos dedos. Quando a água chegou quase a seu pescoço e as ondas começaram a puxá-la, ela tomou uma providência menos afoita. Ciente de que para além de não me salvar, ela estava prestes a tornar-se apenas mais uma a ter de ser salva, minha namorada tomou a difícil decisão de voltar. Caminhando de costas, com receio de me perder de vista num relance, com medo de olhar de novo e não me ver mais no lugar onde estava um segundo antes, equilibrando-se para não ser também arrastada, ela logrou regressar à terra firme.

Não sei como, falando poucas palavras em português, ela não apenas conseguiu encontrar os salva-vidas, identificando os vocábulos necessários, como também comunicou a eles que o namorado estava se afogando. Eles, olhando na direção em que ela apontava, não entenderam do que se tratava. É que eles me olharam justamente no momento em que eu, jogando à sorte, tentava nadar esperando sentir o fundo do mar sob meus pés. Que azar! Como alguém que dava vigorosas braçadas de um lado para o outro podia estar precisando de ajuda? E a incredulidade deles, misturada provavelmente à sensação de que não se estavam a entender com a gringa, chegou ao auge quando ela repetiu, “ele é cego”.

Eu, a alguns e decisivos metros mar adentro, não podia ver os salva-vidas para eu mesmo demonstrar, por meio de gestos, que estava em perigo. Na verdade, eu não fazia a menor ideia de que estavam vindo em meu auxílio ou mesmo que existia essa possibilidade. Para mim, eu estava por minha conta, de modo que comecei a encarar a situação de um modo mais realista. Ficou claro que meu objetivo mudara: não se tratava mais de alcançar a praia, que aliás não fazia ideia de para onde era, mas de poupar forças. Só assim eu conseguiria resistir às longas horas que ainda contava ter pela frente. De maneira que parando de nadar, deixei-me seguir ao sabor das ondas, cuidando apenas para não engolir água. As ondas iam e vinham, a água subia e descia e eu ali, a mercê de uma das mais poderosas forças do nosso planeta.

Entre o dever da profissão e o surreal da situação – na qual ainda não acreditavam completamente, os dois salva-vidas se dirigiram vagarosamente na direção do mar, não obstante a Beatrice os incentivasse aos gritos. “Rápido! Rápido! Ele está perdido, não sabe onde é a praia…” E pensar que Búzios era a única praia do estado do Rio Grande do Norte que contava com um serviço de salva-vidas.

Até que em um ir e vir de uma onda, eu senti o chão embaixo de mim. Um toque rápido, fugaz, mas muito chão. Chão suficiente para sentir, mesmo com o mar cobrindo meu pescoço, para que lado era a praia, o que me fez ver aquela famosa luz no fim do túnel da qual, claro, nem os cegos são privados. A onda seguinte, todavia, me fez perder o chão e um pouco da esperança recém-adquirida. Me esforcei, mas não senti o fundo, temia ter perdido o fio condutor da minha salvação. Eu, contudo, mais intuindo do que propriamente sabendo para onde devia seguir, já tive mais firmeza na hora de dar algumas braçadas na direção que por milagre parecia aparecer. Assim foi que na vez seguinte em que encostei o pé no bendito solo, este já parecia mais próximo e mais firme. O simples fato de ter feito progresso, mesmo que ainda tivesse água pelo pescoço, me fez sentir, pela primeira vez, que era possível.

Algumas braçadas, agora mais decididas, me levaram a uma região em que a água já estava pelo meu peito e na qual (que milagre!), eu não apenas podia sentir o chão como também ficar em pé sobre ele. Respirei aliviado. De algum modo, me salvara dessa! Foi nesse exato momento que os dois salva-vidas me alcançaram. Enquanto se aproximavam, me perguntaram, “você não estava conseguindo ver a gente?”. E, diante da minha resposta, que confirmava o que a minha namorada os tinha dito o tempo todo, eles não se contiveram. Durante os metros em que caminharam ao meu lado, me escoltando na direção da praia, perguntaram repetidas vezes: “Você não enxerga nada? Zero? Zero mesmo? Zero?” e, ainda que eu confirmasse, eles repetiam, “zero? Zero?”. E, quando minha namorada me encontrou, na beira d’água, eles nem ao menos nos deixaram comemorar, insistindo, dessa vez para ela: “zero? Zero? Zero mesmo? Nada?”. Eu sentado na praia, ainda tremendo, “zero, mas nada mesmo? Zero!”… Eu tentando respirar, me dar conta do que aconteceu, processar a informação, eles botando a mão perto dos meus olhos, “é zero mesmo?”…

Eu só queria sossego, mas os dois guarda-vidas seguiam interessados por mim. Eu estava bem, não havia engolido sequer uma gota de água, de modo que o que eles queriam mesmo saber era se “zero? Zero mesmo? Mas não enxerga nada? Zero? Zero?”.

por Marcos Lima

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Bengaladas:

* O Histórias de Cego teve um de seus artigos publicados essa semana. É a primeira vez que isso acontece! Foi no jornal A Voz da Serra, do município de Nova Friburgo. O resultado final vocês podem ler clicando aqui

 

Recomentários:

– João Pedro: você é mesmo o fã número 1 do blog, a única pessoa que deixou comentário em todos os textos. Obrigado mesmo pela parceria e pelo carinho!

– Mário César: a grande vantagem das calçadas acessíveis é que elas servem a todos os usos. Devemos parar de pensar em acessibilidade como apenas uma questão das pessoas com deficiência. Acessibilidade é para todos, ou mulheres com carrinhos de neném não precisam tanto de rampas quanto os cadeirantes? Ou os degraus absurdos não atrapalham tanto os idosos quanto os cegos? Todo mundo, em algum momento da vida, precisa de acessibilidade.

– Gabriela Nóra: Acho que mais do que as bengalas quebradas ou tortas, espero que a mensagem que fique seja essa mesma a qual você se referiu, a atenção ao outro. Isso nos falta muito enquanto sociedade. Muito obrigado pela participação de sempre!

– Eduardo: acho que a melhor campanha de conscientização no caso do Centro do Rio seria se eu pudesse andar com uma armadura de ferro. DAí todos que batessem contra mim iriam aprender instantaneamente a olhar por onde andam!

– Emerson: já que você falou que as Histórias acabam rapidinho, tá aí uma gigante! Espero que você e os demais leitores tenham tido paciência de ler até o fim!

– Marina e Ana Lembo: uma honra saber que meus contos as inspiram. Espero que consiga continuar a passar a mensagem a que se propõe esse blog: a da igualdade.

– Tamara: Agradeço pelas palavras. A vida de todos nós tem diversos dissabores com os quais temos de saber lidar. Alguns nos derrubam mais, outros menos, o importante é tirar deles a parte de culpa que nos coube. Assim, quem sabe, a gente pode evitá-los no futuro. Me sinto realmente encantado de alguém recortar uma parte do meu texto, nunca imaginei que isso fosse acontecer.

14 Comentários

  1. Nicholas disse:

    Marquinho, esta é uma das suas histórias de que eu mais gosto. Outra coisa: todos os textos até aqui foram muito bem escritos, mas acho que este proporcionou a melhor leitura! Vai ver algum dia sai uma história em que participei. Ou aquela do primeiro dia do Eduardo!

  2. Mário Cezar da Silveira disse:

    Fico cada vez mais ansioso pelas suas novas postagens. São espetaculares. Me fazem devorá-las com desejos contraditórios, de chegar ao fim e de que não termine tão cedo.
    Já estou no aguardo do Histórias de Cego 9.
    Grande abraço.

  3. Gabriela Nóra disse:

    Que história, Marcos! Por diversas vezes tive que repetir para mim mesma que, se você estava escrevendo estas palavras, é porque tinha terminado tudo bem. Mas que sufoco, hein?! Fiquei tensa aqui…

  4. Sua historia se desenvolve numa expectativa crescente de tragédia. Você Está Vivo? Ufa! Você está aqui! Espetacular. disse:

    Sua historia se desenvolve numa expectativa crescente de tragédia.
    Você Está Vivo? Ufa! Você está aqui! Espetacular.

  5. Eduardo disse:

    Boa narrativa, me misturo entre o desespero da situação e a imagem do Kiko se afogando na piscina infantil em Acapulco. PS: o Nicholas quer ficar famoso à sua custa

  6. José Américo disse:

    Uma história com muita adrenalina,Marcus.

  7. Tatiana Brauer disse:

    Nossa! Essa foi angustiante! Independente da sua calma e do bom senso da Beatrice, morro de medo de mar e fiquei realmente tensa com a sua narrativa.
    Parabéns! Pela coragem, pela esposa e pelas palavras!
    Beijo!

  8. Paulo Vitor Ferreira disse:

    Marcos, meus parabéns!!!! Quero te entrevistar, meu amigo. Vamos conversar antes :))

  9. Mariela disse:

    Impressionante Marcos… Mal consigo enxergar o que eu faria numa situação desesperadora dessas e ainda assim, você agiu com calma, pensando cada movimento e de forma muito corajosa. Fiquei curiosa sobre um ponto… Como é que por meio de tocar o chão com os pés é possível identificar a direção da praia?
    Beijo

  10. Gabriella Zubelli disse:

    emocionada ao ler esse post ! bjo

  11. Thais disse:

    Eu já ouvi, já li e reli e continuo tensa com esse episódio! Como pode? rs

  12. Janete disse:

    Curuuuuuzes, acho que nunca havia lido um texto tão rapidamente, para ver o que vinha no final…Só dava para suspeitar que tudo acabara bem porque você estava aí para contar. Que susto !

  13. Janete disse:

    Eu não sei para que lado fica coisa nenhuma, sou uma desorientada congênita, mesmo enxergando…

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