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outubro 30, 2013

Historias de Cego 7 – Pior cego …

Monumento em Lyon, na França

Monumento em Lyon, na França

E quando são as outras pessoas que não nos vêem? Acontece sempre. Já tomei cabeçada de pedestres no Centro da Cidade (e a pessoa ainda reclamou), fora as guarda-chuvadas na cara que são muito mais comuns do que se pensa. Para alguns mais desavisados e desaforados, que ainda viram e perguntam “você não olha por onde anda?”, eu já tive que voltar alguns passos e lançar mão do famoso (e penalizante) “eu sou cego!”, para ver (no sentido figurado) se aquela pessoa pelo menos passa a prestar atenção ao redor enquanto caminha. E o pior é constatar que, até esse momento, a pessoa nem se dá conta do que fez. Outros ainda se acham no direito de me chamar a atenção, mandando eu andar mais devagar, como se cego não pudesse ter pressa ou alguma hora marcada, ou como se fosse minha culpa que eles andam com a cabeça no mundo da lua ou com os olhos no celular.
A Associação Internacional dos Cegos Acidentados (na sigla Ai que Dor!), o mais confiável instituto de estatísticas cegais levantou um dado impressionante. Quando ando sozinho pelas ruas, eu desvio mais das pessoas do que elas desviam de mim, por menos razoável que isso possa parecer. Contudo, por vezes os meus esforços são debaldes e o choque é inevitável, porque, afinal de contas, eu não enxergo, né? Há alguns dias na Tijuca, de repente alguém veio de cabeça contra a minha testa, sem que eu pudesse esperar e portanto sem que eu tivesse qualquer chance de me defender. Aliás, só entendi o que tinha acontecido quando um guardador de carros, que estava próximo, comentou com um seu amigo: “ele que tem problema e ela que bate!”.
Algumas vezes, no entanto, os danos vão além do galo na testa ou do roxo no braço produzido pelas damas que manejam inadvertidamente suas bolsas, que aliás parecem conter pedras em seu interior (as bolsas, não as damas). Já perdi uma bengala e tive outra seriamente avariada por conta dos apressadinhos e desatentos de plantão.
Certa vez, na Rua da Passagem, um cara passou correndo na calçada no sentido contrário ao meu. Não era andando rápido, era correndo mesmo. Minha bengala o atingiu em meio a sua passada. Ele apenas a destruiu e seguiu em seu caminho, sei lá se fugindo da polícia, da mulher, da amante… O fato é que o elástico da bengala arrebentou. Minha sorte (é bom tentar ver o lado bom nessas horas) é que eu já estava perto de casa e consegui, não sem muito esforço, fazer o restante do caminho com o que sobrou do aparato. Claro está que, logo que tentei dobrá-la, a bengala desmontou inapelavelmente. E para sempre.
Em outra ocasião, no metrô, uma senhorita, apressada que só ela (e a gente não tem nem direito de questionar a tal pressa dos que enxergam), também teve a bengala enroscando-se entre seus joelhos, bem no meio de uma passada. Como esta bengala era mais forte que a do parágrafo anterior, quem levou a pior foi a Senhora Apressada, que, pega desprevenida, voou alguns metros antes de se estabacar no chão. Não que a bengala tenha saído ilesa: quando a puxei, incrédulo, descobri que seu primeiro gomo estava 60 graus torto; em outras palavras, inutilizado.
O fato é que, quando dei por mim, lá estava eu, em meio a uma aglomeração de pessoas que se dividiam entre me oferecer ajuda, maldizer a moça e até me recriminar por eu estar andando sozinho, como se fosse minha culpa ter uma vida própria. E eu ali, perdido, sem saber o que fazer, como caminhar para a casa – dessa vez eu estava a uns bons 15 minutos a pé – se era possível desamassar, se dava para responder educadamente a quem me perguntava “por que você estava andando sozinho?”, se a senhorita tinha se machucado… Aliás, essa, acho que de vergonha, saiu correndo sem prestar socorro.
Sorte que um segurança do metrô apareceu e me ofereceu para tentar (veja bem o verbo) desentortar minha bengala na parede. Diante de seus avisos de que a bengala poderia quebrar de vez, eu apenas respondi “entre o estado em que ela se encontra e ela quebrada de vez a diferença prática é nenhuma, porque eu não posso usar uma bengala tão torta”, de modo que autorizei-o a fazer o que fosse necessário para ressuscitar meu fundamental equipamento. Felizmente, Deus além de brasileiro tem cuidado especial com os cegos, porque o melhor aconteceu: desamassada contra a parede da estação Botafogo do metrô, a bengala passou a ostentar para o resto de sua existência apenas uns 10 graus de entortamento, sendo completamente usável, embora não esteticamente apresentável. Ainda bem que eu não enxergo mesmo.
Assim, por mais que governos tenham sua grande parcela de culpa na falta de acessibilidade de nossas ruas, calçadas, acessos à edifícios e transportes, a sociedade também tem seu quinhão de responsabilidade nisso (como, aliás, em muita coisa que a gente acha que é culpa só do governo). E não me refiro apenas à grande maioria que caminha nas calçadas como se percorressem as estradas reais de seus feudos particulares, sem olhar para os lados, sem se dar conta de que existem outros passantes. Me refiro também aos que param os carros no meio das calçadas, aos restaurantes que ocupam o espaço público com suas mesas, aos que param para conversar nos lugares mais estreitos, aos que andam em grupos de 3, 4 ou 5 pessoas, atravancando o caminho dos demais… Enfim, para além de obras, precisamos também de uma grande mudança de mentalidade; precisamos que os brasileiros prestem mais atenção no outro.
por Marcos Lima
* se você deseja ser informado das atualizações do Histórias de Cego, curta o Facebook da Urece ou envie e-mail para mlacevicius@gmail.com

Bengaladas:

* Agradeço muito pelas palavras de todos após à matéria em O Globo, tanto os que mandaram e-mail, os que comentaram no site e os muitos que deixaram mensagem no Facebook. Obrigado! Essas mensagens me movem a seguir, mesmo.

* Amanhã gravaremos uma matéria para o canal Futura (Jornal Futura) e no sábado está prevista publicação de um artigo baseado em um episódio de Histórias de Cego, no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo.

* Agradeço mais uma vez ao leitor José Américo que, mesmo sem me conhecer, enviou-me essa semana 5 sensacionais miniaturas, que enriqueceram e engrandeceram minha coleção.

Respondendo aos Comentários:

– João Pedro, obrigado pela miniatura. Adoro, é sempre um presente magnífico. E se é da Romênia então, melhor ainda. Ansioso por recebê-la.

– Rodolfo Freire, fiquei muito feliz com teu comentário. Cabofriense subiu e agora, quem sabe, contará com Loco Abreu. Boa sorte para o teu FC Brasov!

– Bruno, certamente a pior topada da minha vida foi aquela contigo, na rodoviária, quando dei canelada num banco e saí caindo por cima dele. Te perdoo, você nunca tinha me guiado antes, tanto que na volta da mesma viagem eu dei de cabeça naquele poste de ferro. Lembra do barulho? Parecia o Seu Madruga dando um cascudo no Chaves. Sorte que o barulho foi muito maior que a dor.

– Gabriella Zubelli, obrigado pelos elogios. Tento mesmo dar um toque mais leve aos textos; acho que com irreverência e bom humor ganhamos mais do que com cara feia, muito embora às vezes isto seja o único remédio, risos. Obrigado!

– Allan, o meu gostar de Malta não se explica, por isso seria difícil fazer uma história sobre isso! Vou deixar para o dia em que eu
finalmente for lá, espero que em breve;

– Gabriela Nóra, escritor, eu? Fico até lisonjeado pelas palavras! Ainda estou apenas rastejando neste longo e impiedoso caminho da palavra escrita, despretensiosamente registrando minhas impressões. Mas que é bom saber que ainda assim consigo tocar as pessoas, lá isso é. Obrigado!

– Cláudia Serafim da Silva, muito obrigado pelas palavras. Fico até me sentindo importante, risos.

– Luísa Carla, que bom que o post te divertiu. Eu, na hora em que esses micos aconteceram não achei nada engraçado. O bom é que cinco minutos depois já dá para dar muitas risadas! Obrigado por tua leitura!

– Elisa Dettoni, obrigado por ser fã do Histórias de Cego. É um cargo que imputa uma série de responsabilidades. Como tal, você deve promover e divulgar todas as histórias, mesmo as ruins… Boa sorte! E obrigado pelas palavras.

14 Comentários

  1. Mário Cezar da Silveira disse:

    Meu amigo Marcos (se me permite a intimidade),
    Parabéns pelos deliciosos textos que tem nos oferecido para saborear!
    As cidades já não são acessíveis nem mesmos para quem enxerga. As calçadas, infelizmente, não são vistas como instrumentos indispensáveis para o conforto e segurança do pedestre e, por consequência, para a “mobilidade Urbana”.
    Considero que calçadas acessíveis são os elementos mais importantes para a democratização da cidade.
    Se nós videntes, andamos tropeçando em nós mesmos e nas incontáveis barreiras existente nas calçadas, imagino os infinitos “perrengues” vividos pelos cegos.
    Na realidade nós muitas vezes vemos muito menos que os cegos, pois achamos que nos basta o sentido da visão e acabamos por subutilizar os outros sentidos, principalmente a audição. Já vocês são muito mais cuidadosos, pois não ver alimenta a insegurança, a insegurança alimenta o medo e o medo alimenta a precaução de buscar informações e balizamentos.

    Abraços

    Mário Cezar

  2. Gabriela Nóra disse:

    Como não comentar novamente esta semana? Excelente texto, Marcos! Especialmente quando nos adverte acerca da necessidade de mudarmos de mentalidade e passarmos a prestar mais atenção no outro. Eu mesma frequentemente ando por aí distraída e apressadamente… Uma bela reflexão que nos trouxe! Parabéns e mais e mais sucesso!!

  3. Eduardo disse:

    A Associação Internacional dos Cegos Acidentados (na sigla Ai que Dor!) deveria lançar uma campanha de conscientização no centro do Rio. Imagino que poucos lugares concentrem tantos cegos videntes na saída do trabalho..

  4. João pedro Borsani disse:

    Parabéns pelo texto e pelo blog Marcos! Vamos marcar aquele almoço. Um abraço!

  5. Emerson Sanders disse:

    Realmente, é muito bacana de ler as ‘Histórias de Cego’, do Marcos. Ela acaba rapidinho porque a gente vai querendo saber mais e mais… Muito legal! Abração, Marcoooos!

    “A bengala passou a ostentar para o resto de sua existência apenas uns 10 graus de entortamento, sendo completamente usável, embora não esteticamente apresentável. Ainda bem que eu não enxergo mesmo’. – Muito bom esse trecho!

  6. Querido! Você é mesmo um arraso! Adoro seus textos e quando acabo, ja fico ansiosa aguardando o proximo. Parabens! Esse sucesso todo é nada mais do que você merece. bjs da amiga sempre orgulhosa de você!!!

  7. Ana Claudia Lembo disse:

    Marcos, meu querido amigo! Você sabe que sou sua fã desde que te conheci! Como já disse e repito, a TV está perdendo um grande e espirituoso humorista. Não pare nunca! Seus textos são impecáveis e super engraçados. Você é um show man nato. Muito obrigada por nos proporcionar estes momentos incríveis quando lemos seus textos.
    Sucesso sempre! Você é nosso orgulho!

  8. […] nos fazendo passar por muitas situações que quem enxerga e segue seu caminho muitas vezes sem nem ao menos olhar para a frente, nem sequer imagina. E  leitor Júlio Ribeiro, músico de mão cheia, nos contou um episódio que […]

  9. Augusto Fernandes disse:

    Marcos, pelo jeito que as coisas vão e a maneira que esta cidade anda sem calçadas é bom pensar em andar com uma bengala reserva. Grande abraço

  10. Carla disse:

    Marcos, eu me encaixo da categoria da pior cega é aquela que não vê. Fiquei até com medo de te colocar numa enrascada no dia em que saímos para almoçar. Minha vida normal é esbarrar em todo mundo, atropelar cachorro na calçada, bater em porta de vidro, cair em canteiro… Fiquei tensa com nosso curto passeio! Por sorte, só te empurrei para dentro de um canteiro e você rapidamente saiu dele. Menos mal. Na próxima, me guie com sua bengala, faça esse favorzinho… Beijo

  11. Verônica Fonseca disse:

    Ainda não tinha lido esse! E como me identifiquei! Sou uma pobre ceguinha vidente andando pelas ruas e causando o caos por aí… por favor, Marquito, tenha paciência comigo!

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