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Histórias de Cego 5 – Os Malucos de Cada Dia

O povo carioca é muito gentil. Em qualquer lugar que você estiver, há sempre alguém para ajudar. Há alguns anos, eu mesmo, parado na rua à espera de algum amigo, já fiz o teste: por minuto, uma média de cinco a sete pessoas me perguntaram se eu queria pegar um ônibus, atravessar a rua ou se eu estava precisando de alguma coisa. Confesso também que nos últimos anos venho notando, com certa apreensão, a diminuição dessa disponibilidade, vejo todo mundo mais com pressa, vejo menos gente disposta a mudar seu caminho, vejo mais gente que salta o meu braço tão abruptamente quanto pegou, depois de me atravessar alguma rua, e sai correndo sem perguntar nada mais… Mas esse é um assunto para outra coluna.
Necessitando da ajuda dos demais, é natural que o nosso contato com pessoas que nunca vimos antes na vida seja mais intenso do que o que vocês videntes têm. Imagine você estar num sinal e só poder atravessar a rua se alguém que você nunca viu antes te der o braço e te conduzir? Imagina você depender da memória – e muitas vezes também da boa vontade – do motorista de ônibus, tão estressado com tudo que envolve o seu trabalho, para saltar no ponto certo? Imagine, a toda a hora, ter de confiar decisões essenciais – que você vidente toma sem nem perceber – a pessoas das quais você não sabe absolutamente nada, a começar pela índole. Sorte é que, nesse sentido, ainda há pouco que lamentar, pois a imensa maioria dos que se oferecem só quer mesmo ajudar.
Todavia, o que eu quero contar aqui é o que acontece quando algumas dessas pessoas cismam com a gente.
“Eu me chamo Paulino Werneck da Silva, brasileiro. Onde você vai saltar?” foi a primeira frase que eu escutei, ao sentar-me na única poltrona vazia do vagão do metrô, numa tarde qualquer, enquanto ia de Botafogo para o Centro do Rio.
Se eu já me assusto com pessoas que do nada chegam e se apresentam com o nome todo, imagina quando decidem dizer também a nacionalidade? Mas como o senhor parecia ser boa gente, respondi sem pensar muito: “Vou descer na Carioca”. “Pode deixar que eu desço lá contigo.”
Agradecido por encontrar gente tão boa e prestativa no mundo, recostei-me na poltrona, disposto a aproveitar meus dez minutinhos de percurso.
Entretanto, não muito depois de o metrô ter começado a andar, o meu companheiro de banco se levantou. Ele não simplesmente pôs-se de pé; foi na verdade um gesto brusco, seguido por um barulho de pastas e livros sendo atirados com força na poltrona antes por ele ocupada. Era como se meu novo amigo tivesse muita pressa ou como se ele tivesse se lembrado, na última hora, de que tinha que saltar naquela estação. O problema é que não havia nenhuma estação, estávamos no grande túnel entre Botafogo e a estação seguinte no sentido Centro, essa que eu não gosto muito de dizer o nome porque dá azar…
“Nossa! Que prestativo! Será que chegou outro cego e ele vai oferecer o lugar?”, ainda pensei. Mas o motivo que o levou a levantar-se nada tinha a ver com altruísmo. Seus sentimentos eram mais bem exploratórios, já que ele apenas deu uma pequena volta pelo vagão do metrô e retornou para o mesmo lugar onde estava antes, retirando os livros (ou pasta) que ele ali havia deixado e sentou-se normalmente, como se nada tivesse acontecido.
E então puxou conversa comigo. Não entendi o que ele falava. Mas, antes que o papo pudesse render muito, ele foi acometido por um segundo arroubo. Jogando as pastas (ou livros) com ainda mais força na poltrona, ele levantou para dar mais um de seus passeios pelo vagão.
“Não se preocupa não, o ceguinho tá tomando conta para mim”, dizia ele, referindo-se a seus pertences que, na sua ausência, aparentemente tinham ficado sob meus cuidados. Quando ele repetiu a frase, uns segundos mais tarde, foi que eu percebi que ele dialogava com um interlocutor invisível, palavra bonita e eufemística para não dizer inexistente.
E como, ao retornar ao banco depois do segundo ou terceiro passeio ele voltou a puxar conversa comigo, eu confesso que comecei a ficar com um certo receio. Sem saber o que fazer, peguei o celular e liguei para um amigo. O Anderson Dias, presidente da Urece, meu amigo de infância e naquele momento minha válvula de escape atendeu. “Tem um cara estranho aqui no metrô”, foi o que eu sussurrei, tentando não afetar as suscetibilidades do SR. Paulino. O Dias, já acostumado a viver situações assim, apenas me disse para continuar conversando com ele. Estávamos ainda entre Flamengo e Largo do Machado, o que quer dizer que tinha pelo menos cinco estações de contato com aquele senhor. Meu plano era continuar no telefone até a Carioca; com o celular no ouvido, eu tinha a desculpa perfeita para não seguir mais naquela conversa pouco ortodoxa.
Mas esqueci de combinar com o SR. Paulino. Depois de reclamar, a princípio de forma comedida mas depois de maneira mais acintosa, do fato de eu estar falando ao celular, ele começou a me tocar o braço: “Pode deixar que eu te ajudo a descer…” Assustado, desliguei o telefone, mas nem tive tempo de perguntá-lo nada, porque ele levantou-se num estalo, seguido novamente todo o ritual: atirar os pertences à poltrona, levantar-se, dar uma volta pelo vagão do metrô.
Dessa vez, já começando a ficar com medo, eu não percebi se ele tinha algum interlocutor invisível. Eu só queria que chegasse logo a minha estação. E ainda faltavam três ou quatro, eu já nem sabia mais.
Na quarta vez em que ele levantou, eu já terminando de ficar com medo de verdade, escutei-o repetir a seu amigo imaginário: “O ceguinho tá tomando conta pra mim… Eu vou descer com ele na Carioca.” E o pior é que ele decorou a minha estação de destino, frustrando meus planos de fingir que saltaria numa outra qualquer e simplesmente escapar quando chegasse à Carioca.
“Comigo não!”, pensei com meus botões, ciente de que chegara a hora de mudar a estratégia. Se eu seguisse apenas na defensiva, fatalmente teria uma companhia pra lá de pouco convencional pelo meio da rua. Por isso, contando que alguém viria me resgatar, pus-me de pé tão logo o metrô deixou a estação da Cinelândia (uma antes da minha). Mas isso, claro, não agradou a meu vizinho. Ele, que a essa altura havia retornado pela quinta ou sexta vez ao seu banco – creio que os leitores me perdoam se eu disser que tinha perdido a conta -, tocou o meu braço mais uma vez, desta feita com maior força, repetindo com ênfase nas palavras: “fica tranquilo que eu desço lá contigo”.
Ficar tranquilo? Eu? Pensem o que quiserem, mas a última coisa que eu queria naquele momento era que esse Paulino me acompanhasse para fora do vagão, para fora da estação… Então lancei mão de um recurso do qual raramente me utilizo: falei em voz alta, como a discursar, naquele vagão bem cheio: “por favor, alguém poderia me ajudar aqui a descer?”. E finalmente alguém se manifestou, embora o Paulino tenha protestado: “Eu vou ajudar o ceguinho… Ele tomou conta das minhas coisas pra mim”.
E eu, já sem saber o que fazer, com medo de que o argumento do Paulino brasileiro convencesse o cidadão que queria me ajudar, eu apelei a esse outro moço:
“Quero sair bem longe desse senhor porque ele está me incomodando”, ao que o passageiro, enquanto me acompanhava até a outra porta: “É, esse senhor tá meio esquisito”, confirmou ele, como se precisasse.
E eu, mais do que depressa, desembarquei, sob protestos do meu companheiro de banco, cujos clamores ainda ouvi por trás da porta a se fechar, “poxa ceguinho…”

Bengaladas:

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15 Comentários

  1. Allan disse:

    Desconfio que Paulino era teu amigo invisível.

  2. Tatiana Brauer disse:

    Vocês passam por coisas que nós nem imaginamos… parabéns pela postura positiva e muito obrigada por compartilhar, Gabriel!

  3. Eduardo Scofano disse:

    Tomei a liberdade de procurar o Paulino na internet e não achei nada. Desconfio que a desconfiança do Allan tem fundamento..

  4. allan disse:

    Num Google rápido, Paulino Werneck é o nome de um Hospital Municipal na Ilha do Governador.

  5. Ana Lima disse:

    Hahahaha sensacional
    Tem o Ooolha o Degrau!! Tem o cara que nos acusou de roubo nas Americanas. Tem os que perguntam se você não olha por onde anda… rs

  6. Emerson Sanders disse:

    Caramba, que situação! Deve dar medo mesmo, isso sim…

  7. João pedro Borsani disse:

    Isso mesmo, Paulino Werneck é o antigo hospital municipal da Ilha do Governador, não era um hospital de loucos, era um normal mesmo. Mas é isso mesmo, tem muito maluco nesse mundo…

  8. […] Eduardo, entre o Paulino Werneck da Silva e os dois ladrão, eu talvez prefira o primeiro, não apenas porque não vivi o segundo caso e por […]

  9. Augusto Fernandes disse:

    Cara…eu juro que queria ter visto esta cena para te contar quem era realmente o Paulino Werneck da Silva. Brasileiro, Portugues, ou Flamenguesta querendo te converter…
    Grande abraço

  10. […] * sobre cegos e transportes públicos, leia também  Os Malucos de Cada Dia : […]

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