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Histórias de Cego 4 – Os Micos que o Cego Paga

Você costuma pagar micos? Imagina o cego, que não vê e, muitas vezes, se esquece disso. Vou contar duas historinhas rápidas que exemplificam o quanto a nossa vida também é cheia de situações constrangedoramente engraçadas.
Imaginem a cena: sala de aula lotada. Eu e o Filippe Silvestre (atleta de goalball da Urece e meu amigo de infância), sem enxergar um palmo à nossa frente, tentávamos nos acostumar ao novo ambiente. Depois de estudarmos por anos em uma escola especial para pessoas com deficiência visual – o Instituto Benjamin Constant -, aquele era o nosso terceiro dia em um colégio  comum. Éramos nós e mais quarenta adolescentes de 13 e 14 anos que nós não conhecíamos e que não conheciam a gente; pessoas que até então nunca tinham tido nenhum coleguinha de turma com qualquer tipo de deficiência. Quanto mais dois.
Até que entra na sala uma professora de desenho. “Eu nem sabia que se estudava desenho”, pensei eu, imaginando que os alunos aprendessem a fazer um carro, uma pessoa ou um sol. Independente do que fosse, a palavra desenho definitivamente não combina com cegos. Por isso, eu e o Filippe nos levantamos para explicarmos à professora o nosso problema: por não enxergarmos, não poderíamos acompanhar a aula.
Como não conhecíamos ninguém ainda, fomos abrindo caminho entre as carteiras, na direção da mesa da professora. Ela era uma velhinha, com voz de quem tinha mais de 70 anos. Quando chegamos até ela, eu comecei:
“Professora, a Senhora me perdoe, mas eu e o meu amigo aqui somos cegos e não sabemos como acompanhar a aula.”
Ela perguntou qualquer coisa que não entendemos e a gente continuou:
“O que a senhora acha que devemos fazer?”
E ela disse algo sobre procurar a secretaria (ou sei lá que órgão do colégio) e o Filippe começou a agradecer:
“Obrigado, professora,  é porque nós nem sabíamos…”
Nesse momento, um menino com quem havíamos trocado algumas palavras anteriormente, grita em nossos ouvidos:
– “É um homem, pô!”
– É, a “professora” era, na verdade, um velhinho. Ainda bem que nós nunca mais tivemos que assistir à aula de desenho..

A segunda história eu estrelei sozinho mesmo. Embora o Filippe Silvestre estivesse presente, ele foi apenas testemunha “ocular”, infelizmente. O cenário é o ônibus que pegava da escola para a casa. Num banco, sentava eu ao lado do Filippe. E, na poltrona atrás de nós, o Thiago,  um dos nossos melhores amigos na escola. E, tal como todo vidente (pessoa que enxerga) em meio de cego, o Thiago se sentia o rei.
Aproveitando-se do fato de estar sentado no banco de trás e vingando-se de muito do que já havia aprontado com ele, meu amigo me dava constantes petelecos na orelha. Eu tentava reagir, pegar sua mão, mas ele, esperto e enxergante, tirava a mão antes que eu pudesse atacá-lo. Eu bolava planos, tentava deixar a mão mais perto, fingia que não ligava, mas, como quase sempre acontece, o vidente leva vantagem e escapa.
A única maneira de vingar-me dos doídos petelecos era assumir uma postura de confronto direto. Ajoelhei-me no banco e, de frente para ele, comecei o ataque. Decidi utilizar o beliscão, porque, além de dolorido, era também um método mais fino e  discreto que dar um soco ou um tapa.
E foi o que eu fiz. Peguei a pele na altura do joelho e torci com força, sem nenhuma dó, dobrando-a quando possível, descontando cada peteleco que eu levara.
Três segundos se passaram e eu esperando que o Thiago sentisse dor. “Valente ele”, pensava…
Foi então que a voz do meu amigo me interrompeu, embora não com o tom dolorido com que eu esperava: “Você está beliscando o cara aqui!”. Sim, senhoras e senhores, eu agredi o passageiro que viajava ao lado (alguém que eu nem sequer conhecia) e não o Thiago, que se contorcia sim, mas em vez da dor, era de tanto rir. E eu que queria ser discreto!
O que eu fiz? Virei pra frente, baixei a cabeça e torci para que chegássemos logo ao nosso ponto.

Bengaladas

* Se você quiser receber Histórias de Cegos no seu e-mail, mande um e-mail para marcos@urece.org.br ou para mlacevicius@gmail.com

* Peço a vocês sugestões de assuntos. O que vocês querem saber?
Respondendo aos comentários, que foram feitos mesmo no texto de abertura.

* Allan, adoro ganhar miniatura; o que vier é lucro, mesmo estádio do Corínthians, risos. E promessa é dívida, ainda mais quando é feita no blog;

* Jule, Mariana  e João Pedro,obrigado pelos elogios. Confesso que estava com medo de mudar um pouco o tipo de texto que eu vinha publicando, não me acho talentoso o suficiente para escrever sobre assuntos mais sérios, de modo que fiquei bem surpreso com as críticas positivas que recebi;

* Giselle, nunca tinha pensado por esse lado: as miniaturas repetidas são então as fotos de outro ângulo do mesmo edifício. Valeu!

* Nicholas, aquele dia do Maracanã foi legal mesmo, e você deu conta do recado, enquanto a Voz do Brasil rolava. E agora você tem motivos para se lembrar de mim estando em Berlim;

* Isadora, se o caminho de casa já é difícil para você – a ponto de ter que ser medido em quantas vezes você tem que trocar de calçada , fico imaginando para idosos e cadeirantes!

* Carlos Leitão, é uma honra ter um comentário teu aqui no blog. Eu ainda espero que a gente possa conversar mais e mais pessoalmente, risos. Estamos melhorando (o Carlos é deficiente auditivo e então nós estamos ainda afinando a nossa comunicação, porque ele faz leitura labial);

* Carlos Haddad e Renata, obrigado mesmo pelos elogios e pela sugestão, mas acho que falta muito para eu poder fazer um stand up: uma coisa é fazer rir quando você fala de si, abre o coração e conta o que acontece, outra é fazer rir  quando as pessoas já estão esperando por isso. Isso é para profissionais e eu ainda estou apenas engatinhando;

* Juliana, vistas aéreas são quase como paisagens para mim; deve ser algo delicioso de ver, ainda mais o Rio de Janeiro.

13 Comentários

  1. Aline Hastenreiter disse:

    Adorei esse post sobre os micos
    Esse do beliscão foi o melhor, morrendo de rir de imaginar a cena
    Bjs saudades

  2. Thais Castro disse:

    Não me canso de ouvir. Muito menos de ler. Muito bem contado, muito bem escrito! Sou fã! Bjs pra todos da Urece!

  3. Gisèle Wolguemuth disse:

    Marquinhos, você realmente é uma pessoa muito especial!! Sou sua fã de carteirinha!!
    Adorei todas as histórias!!!
    Beijos,

  4. Emerson Sanders disse:

    Muito bom! Huahua! A história do pobre do professor é muito boa mesmo! E vou dar um jeito de conseguir uma miniatura do Jardim Botânico de Curitiba ou da Ópera de Arame para você, my friend! Abração!

  5. allan disse:

    Boa Marquinho…
    Esse saco de “micos” parece ser infinito…

  6. fernanda disse:

    muito bom… vc deve ter um historico imenso de micos. vc escreve muito bem, curto muito seua posts. bjs da prima fe.

  7. Luiza Carla disse:

    Marcos, muito bom esse post, dei muitas risadas.
    Beijos.

  8. […] Luísa Carla, que bom que o post te divertiu. Eu, na hora em que esses micos aconteceram não achei nada engraçado. O bom é que cinco minutos depois já dá para dar […]

  9. […] Luísa Carla, que bom que o post te divertiu. Eu, na hora em que esses micos aconteceram não achei nada engraçado. O bom é que cinco minutos depois já dá para dar […]

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