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Histórias de Cego 4 – Os Micos que o Cego Paga
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Histórias de Cego 3 – O Mundo na ponta dos dedos

Nas diversas palestras que ao longo da minha vida tive oportunidade de ministrar, em ambientes distintos como faculdades, empresas, clubes, etc, tem umas duas ou três perguntas que sempre são feitas. Entre elas não está uma que certamente já passou pela cabeça de muitos: o que os cegos mais gostariam de enxergar? Bem, não sou sindicalista e portanto não tenho procuração para responder pela classe. Então vai uma resposta individual mesmo: as paisagens. Não há nada que seja tão ao mesmo tempo maravilhoso e frustrante do que estar no alto do Pão de Açúcar ou do Cristo Redentor e só poder escutar as interjeições dos turistas misturadas aos ininterruptos cliques de suas câmeras.

Há alguns dias, no Instituto Benjamin Constant, visitei uma sala de maquetes. Eram representações em escala dos principais monumentos turísticos da cidade do Rio de Janeiro, incluindo o Maracanã, Arcos da Lapa com carrinhos e até ônibus passando embaixo, Pão de Açúcar, a enormidade do Corcovado coroado pela estátua do Cristo Redentor. Mas, de longe, a que mais me impressionou foi a representação em escala da Enseada de Botafogo.

Minha infância e juventude passei morando entre Botafogo e Urca. Dei vários passeios pela orla da Urca, já assisti a diversos shows na Enseada de Botafogo, caminhei entre o mar e a montanha na pista Cláudio Coutinho, treinei futebol durante anos no forte São João, andei no Aterro em domingos ensolarados, mas, por mais que se esmerassem em me contar como é a paisagem natural de tão privilegiada região, eu nunca pude comprovar se o que eu imaginava a partir das palavras de tantos se aproximava de alguma maneira da realidade.

Nesse dia, no Instituto Benjamin Constant – que encabeça a lista de lugares marcantes da minha infância -, descobri que não; também pudera, como que a minha mente desprovida de elementos visuais com os quais construir uma forma tão complexa e perfeita, podia conceber algo assim? Aos 30 anos, entendi pela primeira vez o que o meu tio queria dizer quando, ao passearmos na Urca, ele se esforçava, “imagina um U”. Eu imaginava, mas não concebia. Sim, é um U e agora eu descobri, por mim mesmo.Aos 30 anos fui capaz de entender a conformação natural de uma das regiões mais belas do mundo. Pude entender o frissom que a Enseada causa em cariocas e visitantes; e até o porquê de aquela janela no alto do Botafogo Praia Shopping ser tão disputada!

Obrigado, maquete! Sem você, eu nunca ia entender que Urca e botafogo estão assim, um de frente para o outro… Agora compreendo a razão de termos ido até a mureta da Urca para assistir àquela corrida de aviões, mesmo ela acontecendo na parte botafoguense da Enseada. É, a visão devia mesmo ser privilegiada! E eu perdendo tudo isso, até hoje!

Fenômeno parecido aconteceu em Berlim. No andar térreo do Bundestag, o Parlamento Alemão, encontrei uma sala dedicada aos visitantes com deficiência visual. Além dos modelos em escala do Portão de Brandemburgo e do próprio Bundestag, havia uma muitíssimo detalhada maquete do centro da cidade de Berlim. Sensacional! Devo ter cansado aqueles que comigo estavam de tanto que ali fiquei, tentando decifrar cada prédio, percorrendo com meus dedos os caminhos que antes havíamos feito, tentando estabelecer, com precisão de milímetros, onde passava o Muro de Berlim.

Na mesma tarde, num passeio de barco pelo rio que corta a cidade, eu experimentei algo muito diferente do que normalmente sinto. É que tours de barcos, para quem não vê, são muito chatos, porque você não consegue ter nenhum tipo de interação com a paisagem tão exaltada pelos passageiros ao redor. É em meio a “que lindo!”, “Você viu aquilo?”, que você se sente perdido. Mas não naquelas duas horas, quando fui capaz de acompanhar cada um dos lugares pelos quais passávamos e até consegui prever e apontar os destinos futuros. Tudo isso por conta da maquete!

Passei apenas dois dias em Berlim, mas a força com que a cidade ficou gravada na minha mente (e no meu coração) suplanta por larga margem a de outras metrópoles em que estive por mais tempo. E tudo isso porque, com a maquete em relevo, fui capaz de criar na minha mente uma Berlim pra mim, uma Berlim que não era só uma coleção de ruas e monumentos; a capital da Alemanha acabou adquirindo forma na minha cabeça, uma forma só dela, com o Rio Spree e o que restou do muro mais famoso do mundo. E tudo isso porque fomos apresentados de uma maneira muito íntima.

Não foi só em Berlim. Até mesmo Olomouc, cidade do interior da República Tcheca onde passei cerca de um mês quando do projeto Esquiando no Escuro, exibia, orgulhosa em seu conservado centro histórico, uma maquete bem detalhada da região central da cidade, com suas torres pontudas, casinhas em formato único, ruelas, praças… Quando nevava, ainda podia assistir com meus dedos ao espetáculo dos flocos cobrindo os diversos telhados da cidade. Ah, então é assim? É o que mais perguntava.

Maquetes são incríveis porque nos dão a oportunidade, sempre rara, de podermos ver com nossos próprios olhos (ou no caso, com nossos próprios dedos). É que, vocês que enxergam sabem, por melhor que seja a descrição, por mais esmero e detalhes que o narrador ponha no ato de transformar imagem em palavras, nada substitui o contato direto com o objeto, seja ele uma pessoa, um monumento ou uma paisagem. Para nós, é exatamente assim. Descrever é muito importante, mesmo porque há muitas coisas que estão totalmente fora do nosso alcance tátil, mas digo que ter a autonomia de descobrir algo por nossa própria percepção, sem o filtro dos olhos de outrem, é algo sublime. A sensação de pertencimento e de igualdade que isso propicia minhas palavras não são suficientes para transmitir.

É por isso que eu tenho, em casa, minha própria coleção de miniaturas… Mas bem, essa é uma outra história para um outro momento.

Bengaladas:

*Agradeço novamente aos comentários postados no site. Vou tentar, dentro do possível, responder a todos, sempre no post seguinte, pela ordem em que foram postados. Ai vai:

– Milena, entre meus colegas e amigos cegos, não tem um sequer que tenha cão-guia. Apesar de saber que existem cegos que utilizam desse expediente no Brasil, cães-guia são bem mais comuns no exterior. Não sei o motivo, mas fiquei imaginando um cego embarcando com um cão-guia no metrô da hora do rush.

– Ramon, quanto a sua sugestão para que eu cante, basta dizer que se cegos têm aptidão para a música, eu sou a exceção que confirma a regra. Sou péssimo e descoordenado, como você sabe bem…

– Eduardo, nunca bati numa placa de trânsito… Aliás, não que eu soubesse. Em geral não costumo perguntar o nome dos meus inimigos!

– Allan, boa lembrança. Para você ver que nem acompanhados nós cegos estamos completamente a salvo;

– Paola, obrigado pelos elogios. É bom saber que meus irmãos videntes também enfrentam o mesmo problema, não porque queira vê-los roxos por aí, mas é que assim é mais fácil que alguém se atente para esse problema.

– João Pedro, a acessibilidade é realmente uma questão importantíssima na qual o Brasil, infelizmente, ainda tem que avançar bastante. O bom é que mais e mais pessoas estão se atentando para isso.

– Tatiana, obrigado pelos elogios. Quanto aos hematomas, vou os colecionando e substituindo. Felizmente a prática de muitos anos de futebol me deu a resistência necessária aos golpes de hidrantes e CIA.

20 Comentários

  1. Allan disse:

    Terás a primeira miniatura do Itaquerão que eu encontrar. Esta emoção não poderá faltar em seu repertório.

  2. Jule disse:

    Caro Marcos, sua história é maravilhosa! Lembro-me bem a nossa viagem para Berlim! Tenho saudades de voces. Beijos. Jule

  3. Giselle Cerqueira disse:

    Muito bom!!! Eu contribui pra sua coleção! Com uma miniatura repetida, é bem verdade. Mas está super de acordo com as máquinas digitiais utilizadas hoje em dia. Tiramos vááárias fotos iguais, ou seja, vc está absolutamente incluído no universo dos registros de paisagens. rsrsrs
    Já estou aguardando ansiosamente a história da semana que vem! rsrsrs

  4. Nicholas disse:

    Marquinho, até você já escreveu sobre Berlim e eu não; pra você ver! Ainda não fui ao Reichstag, mas quando for e vir a maquete, vou tentar me colocar no seu lugar. Com essa história sobre como você faz para enxergar coisas que você não pode tatear diretamente, acabei lembrando de quando narrei o primeiro tempo do jogo contra o Coritiba pra você, no Maraca.

  5. João pedro Borsani disse:

    Muito bom o texto Marcos! Estou indo pra Romenia esse sábado, vou buscar alguma miniatura pra você, aliás se você ou a Beatrice tiverem encomendas me manda pelo facebook. Infelizmente por questão de tempo não conseguimos marcar aquele almoço prometido, mas quando voltar de viagem vou marcar com certeza. Abraço!

  6. Mariana Vieira de Mello disse:

    Marcos, fiquei com peso na consciência de não ter visto a maquete na catedral em Lyon, pra poder te levar lá! Mas pelo menos achamos as miniaturas! Seus textos são deliciosos e nos ensinam muito. Que bom que eles voltaram!

  7. Juliana disse:

    Marquinhos, lembra quando estávamos voltando de alguma viagem e quando o avião começou a entrar no céu do Rio eu descrevi para você as paisagens? Neste momento até falei para você que queria ser Hemingway???!!!! Bons tempos, saudade. Bju da Ju!

  8. Adriana Lessa disse:

    Eu já queria conhecer Berlim! Agora virei fã através de você! Arrebentando, como sempre, Marquito. Bjs da fã, Dri Lessa.

  9. Thais Castro disse:

    Sua coleção é tão sensacional que vicia os amigos! Às vezes me pego pensando: “Po, férias no Chile não têm graça, o Marquito já tem todas as miniaturas de lá! Ou pior: “Será que Cabo Frio tem miniatura?”

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  12. […] indo, além das preciosas e minuciosas descrições de meu companheiro de viagem. Não encontramos maquetes táteis e como a ideia de um museu de miniaturas ainda não havia passado pela minha mente, não trouxe […]

  13. Ricardo Branco disse:

    Marcos, ótima história, primeiramente sobre o Rio de Janeiro realmente é uma das cidades mais bonitas do mundo (cidade maravilhosa), posso lhe afirmar que das cidades que já visitei pelo mundo o Rio esta entre as mais belas, e pela sua descrição as maquetes puderam lhe ajudar a sentir ou perceber como isso realmente é verdade, agora sobre a cidade de Berlim eu ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas pela sua descrição uma cidade que tem o cuidado aos visitantes com deficiência visual mostra que aprendeu a dar valor a diversidade, então esta é uma cidade que gostaria muito em conhecer, agora não só pela história moderna (I e II guerra mundial) mas também pelo respeito ao turista. Obrigado pelas dicas. Um abraço.

  14. […] professor e guia Gabriel Mayr diante de uma fascinante maquete do centro histórico de Olomouc,  aquela mesma das casinhas e torres cobertas de neve quando fomos abordados por uns caras, que acho que eram italianos. A cada domingo, eles cobrem […]

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  16. […] a câmera se foi e para repor custou trabalho e dinheiro. Agora, falando do teu comentário no Histórias de Cego sobre Berlim, acho que ainda falta muito para que o Brasil consiga conviver e respeitar suas diversidades, […]

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  20. HELIO S. SILVA FILHO disse:

    Marcos, achei super interessante essa história das maquetes. Jamais havia pensado nisso. Vivendo e aprendendo.

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