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Histórias de Cego 14 – O Dia em que Caminhei em Duas Rodas

Na foto, o Augusto, que me inspirou a topar esse desafio

Na foto, o Augusto, que me inspirou a topar
esse desafio

Não enxergar é bem complicado, porque você não vê os caminhos, não enxerga os obstáculos, não tem acesso a muitas informações visuais do mundo que nos rodeia… SEr cadeirante tampouco é fácil, com a total falta de acessibilidade de nossas ruas, com poucas rampas que muitas vezes são escondidas por motoristas que deixam seus carros bem na frente delas, com as calçadas irregulares, etc. Eu fui ambos, ao menos por um dia e justamente na última sexta-feira 13 de 2013, data sugestiva, porque é o dia internacional do cego.

 

Tudo ocorreu por conta de um programa do meu trabalho chamado “Eu não sou cadeirante, mas e se fosse?” em que a área de acessibilidade disponibilizou cadeiras de rodas para que os funcionários experimentassem na pele como é ser um cadeirante no Rio de Janeiro. Havia duas opções: lógico que eu escolhi a very high extreeme, que consistia em passar o dia inteiro de trabalho numa cadeira de rodas, incluindo a saída para o almoço. Ah, eu também era o único cego a fazê-lo.

 

O meu desafio era tão extremo que mesmo a Sabrina, que estava cuidando das inscrições dos interessados , minha amiga e por isso sabedora de minhas potencialidades, ficou reticente quanto aos resultados de deixar um cego rodar sozinho com uma cadeira de rodas. Minha persistência a convenceu. “Como você vai fazer para saber para onde está indo?”, perguntava ela. E eu sei lá, como vou saber se eu nunca fiz isso antes! “Mas você tá preparado?”. Que nada, o ser humano lá tá preparado para alguma mudança drástica até ela acontecer e termos que lidar com as consequências?

 

Foi com esse espírito de vamos ver que bicho vai dar que sentei numa cadeira de rodas de um modelo bem pequeno e apertado às 08h30. Os primeiros instantes são flutuantes, com você batendo em tudo e em todos, sem saber muito bem como manejar os controles, no caso as duas rodas. Perdia, de uma vez só, as duas mãos, essenciais para manejar o equipamento, de modo que, sem poder segurar a bengala, a primeira dificuldade que se apresentou foi a de como faria para locomover-me sem correr o risco de ficar paraplégico de verdade. Experimentei colocá-la entre os joelhos, mas logo ficou claro que, qualquer resvalada no piso e a bengala se voltaria como uma haste na direção da minha garganta. Assim foi que dobrei-a, de modo a diminuir sua altura e as chances de ser degolado.

 

O primeiro desafio, a caminho da minha mesa, foi um pipistop no banheiro acessível do meu andar, já tão meu velho conhecido. Juro que, depois que me enrolei todo para abrir e fechar a porta e quando finalmente consegui estacionar a cadeira junto ao vaso sanitário (que falta faz um flanelinha nessas horas!), pensei em dar uma roubadinha, de leve assim só pra facilitar. Se eu ficasse em pé rapidinho ninguém ia ver mesmo e o problema estava resolvido. Mas daí me lembrei do meu amigo Augusto, inspirador de minha decisão de topar aquele desafio, pensei que havia pessoas que jamais poderiam optar por levantar-se; e prossegui. Ou seja, sem ter tido nenhuma aula de como fazer a transferência de um assento para o outro, fui me apoiando, me pendurando, torcendo para que a cadeira não caísse para trás, tentando tirar a calça sem que eu mesmo não acabasse dentro do vaso.

 

Chegando finalmente a minha mesa, encontrei… A minha cadeira, a outra, a de trabalho, que eu tive que remover da frente. Assim foi que prendi meus pés em baixo dela e a fui empurrando. Ficou tão bom, que quase adotei o novo procedimento, já que aquela poltrona funcionava como um airbag ideal. Pena que o conjunto não caberia em elevador nenhum!

 

Minha chefe, a Mariana, divertindo-se com minha coragem, documentava as aventuras do cegaleijadinho. “Bom dia”, me desejou um colega de trabalho. “E lá é um bom dia para quem tem duas deficiências”, respondi divertido, ao mesmo tempo em que pensava que meu caso era tão grave, que nem o movimento paralímpico, pródigo em inclusão, tem algum esporte reservado para mim. Falar em reservado, tive que recorrer a ele muito mais vezes do que o habitual, talvez por estar sentado o tempo todo em uma cadeira bem apertada, talvez pela experiência diferente. E justamente no dia em que eu estava numa reunião internacional, saí umas três ou quatro vezes do auditório para cumprir minha sina. E se um cego já chama atenção, quando ele está na cadeira de rodas, com a bengala presa aos joelhos, é verdadeiramente impossível sair de um ambiente de forma discreta. E daí sempre que eu tinha que ir ao banheiro, todo mundo parava, me olhava e eu quase me sentia obrigado a esclarecer, “calma gente, é só o número 1”

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Bideficiente, tinha dois problemas para resolver em meus deslocamentos: como andar com a cadeira em linha reta e como, além disso, poder me guiar para evitar os obstáculos que estão pelo caminho, mesmo dentro de um prédio bastante acessível. Aliás, se não fosse a acessibilidade, não teria sido possível, porque simples necessidades como ir ao banheiro, trocar de andar ou mesmo chegar à mesa de trabalho, dependem da existência de rampas, banheiros espaçosos e adaptados, pias baixas, elevadores, etc. Eu tentei me guiar pelo piso tátil, mas foi só no final do dia que eu consegui pegar o jeito de como manter as rodas da cadeira sobre a superfície rugosa que nos serve de guia e que me indicava que estava andando em linha reta. Mas, em meio a tudo, descobri logo uma vantagem: a cadeira de rodas tinha um lugar ideal para apoiar a minha bengala, resolvendo um problema que eu sempre tenho quando chego a algum lugar e fecho meu instrumento de caminhada e me encontro com não ter onde colocá-lo.

 

Mas o desafio supermegaextralarge era mesmo o almoço. E as meninas ainda escolheram o lugar mais longe. Sério, como eu faria para me guiar na rua? Claro que não estava sozinho, óbvio que não iriam deixar com que eu caísse na rua e fosse atropelado por um ônibus grandão, mas dentro do possível, eu queria fazer tudo por mim mesmo. Para isso, no entanto, era imprescindível que eu encontrasse um meio de utilizar a minha bengala, o que era difícil na medida em que minhas duas mãos estavam ocupadas em movimentar a cadeira. Porque, quando se está andando na rua, não basta manter a bengala à frente, como é possível fazer dentro de um local que eu já conheço bem; é necessário movimentá-la, de um lado para o outro, de modo a garantir que não há um obstáculo em seu caminho.

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Experimentar era mesmo a palavra do dia, de modo que usei a criatividade para tentar manejar a bengala sem as mãos, mas só consegui algum resultado (veja bem, algum resultado) esticando bem as pernas a minha frente e segurando a bengala entre os joelhos. Movimentando as pernas para um lado e para o outro, como num samba do cego doido, fui capaz… Mentira, não fui capaz de nada mais do que arrancar risadas dos que me acompanhavam e possivelmente aumentar as expressões de pena dos que passavam e viam aquele infortunado deficiente. Nunca tantos carros pararam para que eu pudesse atravessar!

 

Era quase impossível me guiar com a bengala, diante de todos os outros novos obstáculos e desconhecidas sensações que apareceram na minha vida. Um meio-fio, que até ontem eu descia com um passo, hoje requeriu (existe isso?) uma operação toda especial: após identificá-lo com a bengala, tinha que manobrar a cadeira, virá-la de costas para o precipício de 30 centímetros, encomendar-me a Deus, empinar o meu veículo e zaz… Olha o que faz a falta de rampas! E se andando a gente percebe o quanto as calçadas são irregulares, quando se está numa cadeira de rodas é que esse inconveniente salta aos olhos. E faz saltar o corpo todo. Quaisquer desníveis influem negativamente no desempenho da cadeira; chãos de pedra portuguesa são irritantemente trepidantes, exigindo uma maior força nos braços para serem vencidos. Vencidos mesmo, esta é a palavra! A odisseia foi tão desgastante e demorada, que confesso que no caminho de volta a Natalie empurrou a cadeira durante todo o percurso, enquanto eu fiquei ali sentado, tranquilão, apenas curtindo a paisagem.

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A reunião durou o dia inteiro. Em ocasiões assim, eu sempre fico esperando os intervalos porque sinto uma imperiosa vontade de levantar, dar uma caminhada, esticar o corpo. Mas… tõen! Não valia levantar da cadeira de rodas, nem quando o corpo quase ordenava. No último intervalo, já pelo meio da tarde, eu corri com a cadeira de uma ponta à outra do corredor, apenas para me movimentar. Mas não roubei em nenhum momento e sou muito orgulhoso disso. E confesso que, quando chegou a hora de devolver o equipamento, quase que não ia conseguindo pôr-me de pé, as pernas fraquejaram e a minha coxa doía como se eu tivesse malhado. Diante disso, como será que meus braços enfrentariam o dia seguinte? Não sei, assim que cheguei em casa, escrevi esse texto, aproveitando que eles eram ainda funcionais.

 

Ah, sabe aquele lugar maravilhoso que encontrei para deixar a bengala? Quando voltei do almoço descobri que o roçar da roda da cadeira desgastou o cabo da minha bengala de tal maneira, que agora tenho um desenho muito diferente bem onde a seguro, marca indelével do dia em que somei as dificuldades e multipliquei as potencialidades de duas deficiências tão distintas. É, de fato – e que me desculpem os cadeirantes – é bem mais fácil ser cego. Essa experiência apenas confirmou uma antiga suspeita: a visual é mesmo a melhor deficiência.

 

por Marcos Lima

 

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Bengaladas:

 

*Recomentários:

 

– Janete, obrigado pelas bonitas palavras. Mas não sou tão incrível quanto você pensa não.. Como todo mundo, tenho qualidades e defeitos, estes em maior número, eu diria. Obrigado por acompanhar o blog.

16 Comentários

  1. Gabriela Nora disse:

    Melhor do que esse texto, so mesmo essa experiencia! Fantastico, Marcos! Adorei! Parabens pela coragem, pela determinaçao e por, mais uma vez, chamar a atençao para as questoes que realmente importam. O blog esta cada vez melhor!

  2. Eduardo disse:

    O fato de você ter esticado e flexionado as pernas para manejar a bengala não constitui um “roubo”? Tenho a curiosidade de saber qual a diferença de preços entre uma cadeira de rodas normal e uma motorizada. Deveria ser um sistema mais popular, é uma “mão na roda” para os cadeirantes. Descobre aí!

    • Augusto Fernandes disse:

      Prezado Eduardo, vou ajudar o Marcos a tirar a sua dúvida quanto a cadeira motorizada. Em se tratando de custos ela é bem mais cara do que a de uma cadeira usual. Pode variar entre cinco mil a trinta mil reais, enquanto que uma usual pode variar de um mil a quinze mil reais. Mas o interessante é que muitas pessoas acham que a cadeira motorizada é a solução de todos os problemas e que não é bem verdade. Quando o deficiente físico tem movimentos e um pouco de forças nos braços geralmente e quase sempre ele utiliza cadeira usual, pois alem do preço tem também a praticidade em transportá-la. Visto que uma cadeira motorizada em função da bateria ela precisa de duas pessoas para colocá-la no carro e também não é qualquer carro que ela cabe. Assim acaba inviabilizando vários passeios. A não ser que se tenha um carro com opção de rampas ou elevador. Voltando a história do Marcos e no caso dele ter optado em usar uma cadeira motorizada ele certamente teria de ir na rua em praticamente todo o percurso, pois é muito complicado subir e descer meio fio com ela. Enquanto que uma usual uma pessoa consegue ajudar neste processo com um pouco de conhecimento e força.
      Espero poder ter contribuido com suas dúvidas.

      • Eduardo disse:

        Obrigado pela resposta, Augusto. Não fazia ideia de que o preço poderia variar tanto. É uma pena que o sistema seja tão complicado para o cadeirante. Com certeza já temos tecnologia suficiente para desenvolver um modelo mais eficiente.

        Por coincidência, deparei-me com uma reportagem que explica que o SUS passou a oferecer, desde novembro, a cadeira motorizada e a monobloco (não entendi o diferencial dessa). Mas só posso imaginar a burocracia e lentidão para se ter acesso a isso tudo..

        Um abraço

  3. Augusto Fernandes disse:

    Amigo Marcos,

    Acho que esse final querendo dizer que você prefere a sua cegueira do que ser cadeirante é uma tanto curiosa. Pois se me fizer a mesma pergunta eu prefiro ser cadeirante do que cego. Risos!!! Engraçado isso!!! Cada um com sua espada para não dizer cruz.

    E fique sabendo que essa semana ainda peguarei sua bengala para tentar me localizar aqui no comitê.

    Grande abraço

  4. Luciano Videira disse:

    Excelente! Muito bom, Marcos!!!!

  5. Valeu Marco pela brilhante matéria. Fico feliz porque conseguimos passar para o Rio2016 a ideia de nosso Projeto BLA – Busco Legados de Acessibilidade. Não sou cadeirante mas…e se fosse?
    Fizemos um site http://www.buscolegados.com e uma página no facebook http://www.facebook.com/bla2014e2016. Queremos nos unir a todas as PcD para fazermos do Brasil , iniciando pelo Rio de Janeiro, um País acessível para todos.
    Para quer quiser participar do Projeto é só acessar http://www.catarse.me/pt/blario
    Fique
    com Deus
    Fábio Guimarães

  6. Mariana Vieira de Mello disse:

    Marcos, tenho que confessar que me diverti bastante com a sua ousadia! O mais engraçado foi quando fomos almoçar. Marcos com seu orgulho do tamanho do mundo queria o mínimo de ajuda possível. Fui seguindo bem de perto para, como ele mesmo falou, evitar um acidente mais grave. No momento do meio fio, já descrito, estava eu, acompanhando de perto, mas sem ajudar. Eis que olho para o lado e está um homem, todo paramentado com uma roupa de equipe de resgate, me olhando com a mesma cara de desaprovação que a minha mãe olhava nos momentos das maiores travessuras! Era claro que estava me reprovando e pensando: Que mulher mais fdp… o cara é cego e cadeirante e ela nem pra ajudar! kkkk

  7. Bianca Castro Fuly disse:

    Marcos, eu adoro seus textos. São muito bons, divertidos! Parabéns pela participação no programa “Eu não sou cadeirante, mas e se fosse?”. Obrigada por compartilha com a gente, essa experiÊncia. Grande abraço.

  8. Sabrina Porcher disse:

    Ai, ai… Mas tu é tinhoso hein guri? Eu juro que não me preocupo mais contigo… Risos! O texto tá demais, ainda bem que tu não publicou lá no blog. Eu ficar com vergonha do meu!
    Agora é sério… Parabéns pela coragem (tá, eu sei que pra ti nem foi nada demais!!!). Eu fiquei apreensiva mesmo, mas tu é fera, tirou de letra.
    Ah, muito engraçada essa tua ‘discussão’ com o Augusto! Risos! bjos

  9. Carlos Leitão disse:

    Marcos,

    Você participou o dia internacional do cego. Ih! é sexta-feira 13. Cuidado! Achei muito bacana participar o nosso programa de acessibilidade, mas valeu a pena. Você é corajoso!! PARABÈNS!!!!

    Ser cego-surdo… Caramba deve ser muito dificil.

    Abraço,

  10. Pia disse:

    Marcos, mais um texto sincero, divertido e importante! Fico feliz que as suas histórias continuam e que muitas pessoas tem a possibilidade de descobrir muito mais do mundo – do mundo em geral e do seu mundo. Mesmo que sejam do outro lado do Atlântico! beijos

  11. João Pedro disse:

    Parabéns Marcos, esse dia merecia uma matéria jornalística, muito legal o exemplo, só assim vamos evoluir na conscientização pela acessibilidade.

  12. Sonia Modesto disse:

    Oi Marcos!
    Estou adorando suas histórias.

    Essa última, também nos faz pensar que o mundo seria outro se pudéssemos “viver e nos colocarmos no lugar do outro” nem fosse apenas por alguns minutos. Tenho certeza que o mundo seria um pouquinho melhor e mais justo.
    Um grande beijo
    Sonia.

  13. Gabriella Zubelli disse:

    Marcos, vc é fantástico!
    Seu modo de olhar a vida e de querer ter experiências diversas é inspirador!

  14. Helio Silva disse:

    Hoje li mais algumas histórias. Ainda tenho todo o 2014 pela frente, mas sei que será devorado muito rapidamente. Tudo muito interessante, Marcos!

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