Urece participará de projeto inovador da FIFA para a Copa do Mundo no Brasil
dezembro 4, 2013
Histórias de Cego 14 – O Dia em que Caminhei em Duas Rodas
dezembro 17, 2013

Histórias de cego 13 – Tateando por Aí

 

Acho que todo o cego já ouviu alguém dizer que “Deus tira uma coisa mas sempre dá outra”, a versão deficiente visual do famoso “Deus quando fecha uma porta sempre abre uma janela), em referência ao fato de, em geral, apresentarmos os outros 4 sentidos mais aguçados quando comparados às pessoas ditas normais (ou videntes, que é como nos referimos a quem enxerga).

 

Religiosidades à parte, o que acontece é que naturalmente audição, tato, olfato e paladar ganham um papel mais destacado em nossa percepção e por isso têm a necessidade de se desenvolver mais. Não é algo automático, do tipo “abracadabra, faz-se uma audição mais aguçada!”; é que nós, como não vemos, somos forçados a prestar mais atenção nos sentidos que funcionam. E nada daquilo de que cego enxerga com os olhos do coração… A gente não enxerga com olho nenhum mesmo, mas tenta compensar com os outros sentidos. Ou seja, vamos fazendo o que dá, buscando sobreviver nesse mundo tão visual. Já li, só não me perguntem onde, que 70% de toda a informação que um indivíduo recebe vem por estímulos visuais. E é atrás desse montante que temos que correr, todos os dias.

 

Claro está que mesmo a combinação de audição e tato acuradíssimos não substitui 100% a visão (e nem chega perto disso), Todavia, são muitos os exemplos que posso dar de coisas que vocês vêem com os olhos e que a gente também vê, mas utilizando outros sentidos.

 

Mesmo vocês, pobres videntes, se cobrirem os olhos vão perceber, em alguns segundos, que os outros sentidos, pricipalmente audição, parecem muito mais vivos e presentes. Eles sempre estiveram ali, mas você, todo pimpão por enxergar tudo a sua frente, nunca deu muita bola para eles. Contudo, privados da visão, a tendência – e única solução –  é compensarmos utilizando outros meios. No caso de vocês, apenas a audição, porque para que seu tato chegue a captar o mesmo que o meu, ah amigo! Para isso necessitarias de anos de cabeçadas nos postes da vida. Todos os videntes que conheço não tiveram muitas dificuldades para aprender o braille quando empenharam esforço e algum tempo nessa tarefa. No entanto, todos lêem os pontos que formam as letras com o olho, justamente porque seus dedos não foram suficientemente estimulados a ponto de serem capazes de distinguir nuances tão sutis como as combinações diferentes dos pontos em relevo. Isso significa que, ler com o dedo, somente nós cegos. O braille para vocês é com o olho e olhe lá!

 

Ou seja, tudo isso pra dizer que não é só ficar cego que de repente o mundo mágico dos outros quatro sentidos se descortina numa miríade de sensações únicas. É tudo mesmo uma questão de vivência, de você saber dar valor ao que eles querem te dizer ou mostrar, algo que, longe de ser instantâneo, é um processo que vai se aperfeiçoando mais e mais, na medida em que você vai aprendendo a interpretar esses sinais. Nesse sentido (olha eles aí, até na gramática!), se não podemos ver a cara de tristeza de alguém, o simples soar de um “bom dia” já me fornece um quadro de como aquela pessoa está. Se eu não posso ver uma parede enquanto caminho, os meus ouvidos reconhecem a diferença sonora e identificam, mais ou menos como faz um morcego, que há algo grande por ali e que deve ser evitado. Se eu não posso ver uma paisagem, as maquetes táteis ou as miniaturas dão uma ideia em escala de como é a coisa. Ou não dizem que uma imagem vale mais que mil palavras? E isso se aplica também no nosso caso, que vemos com os dedos. Essa semana mesmo uma amiga arquiteta, que queria minha opinião a respeito da acessibilidade para deficientes visuais em um determinado espaço, me fez uma primorosa descrição do local em questão. O problema é que tem coisas que só vendo mesmo para entender. Assim como teria sido impossível para ela entender a planta sem botar os olhos sobre o desenho, para mim é impossível compreendê-la sem botar meus dedos.

 

Muito embora a audição seja claramente o nosso principal sentido, não podemos minorar o valor do tato. Afinal de contas, é com o dedo que temos o primeiro contato com as palavras quando aprendemos a ler, com os alimentos quando somos pequenos, com as formas dos objetos, com os animais que de outro modo não conheceríamos…

 

E como tudo isso é importante! Quando éramos crianças, um amigo meu, muito mais esperto e versado que eu, um dia perguntou a um outro amigo nosso, que na época enxergava um pouquinho: “Mas um boi é grande quanto? Como um ônibus?”. É que, tendo perdido a visão muito cedo, ele utilizava as referências do seu cotidiano para tentar determinar qual era o tamanho de algo bastante conhecido, mas por ele nunca tocado. E vamos ser sinceros, não é muito fácil tocar num boi, vai convencer o bichinho a ficar parado para que o cego possa apalpá-lo. Muuuuuuu!

 

Assim, se utilizamos a audição para nos orientar, é com o tato que enxergamos. Pena que esse sentido sofra tanto preconceito! Quer um exemplo? É só olhar para as várias e várias maquetes, aprisionadas como pássaros tristes atrás de redomas de vidro ou acrílico em museus ou em parques de miniaturas, totalmente fora de alcance para os nossos ávidos dedos, sedentos de conhecimento e informação; ou basta pensar que você não se importa que te olhem, mas não admitiria que te tocassem, nem que seja para ver como você é.

Quando eu esquiei, um novo elemento veio interpor-se nessa relação: a luva. Costumo dizer que um cego com luvas equivale a um vidente com óculos! Porque, é com as mãos que a gente sente o ambiente ao nosso redor. Tocar as coisas é ainda parte fundamental do processo de apreender o mundo. Embora luvas não impeçam completamente o toque, elas como que põem o objeto tocado em uma espécie de névoa, uma vez que retiram a nossa sensibilidade para os detalhes. Resta apenas o objeto bruto, disforme, embaçado. Acho que o melhor seria dizer que um cego com luvas equivale a um vidente que precisa de óculos mas não os utiliza.

 

Até por isso, eu tenho uma frescura de que detesto segurar coisas por longo tempo. Não é que eu odeie levar objetos, mas sim segurá-los inutilmente, quando se poderia colocá-los facilmente em uma mesa. Me sinto preso, amarrado, refém daquela coisa; é como se eu estivesse privado de mais um dos meus sentidos. Me sinto igualmente preso quando ando na rua a segurar a bengala numa mão e uma sacola qualquer na outra. O mesmo vale para os guarda-chuvas, acho que um dos objetos que encabeçam a minha lista de desafetos. Sei lá, é como se as mãos mesmas me faltassem. Não posso nem ser ajudado por ninguém, não tenho como colocar a mão no braço para ser guiado.

 

Além disso, detesto estar com as mãos sujas. Me sinto como se com as mãos engorduradas, estivesse a usar óculos com lentes embaçadas. Não sei se é porquê eu tenho que ficar tocando nas coisas para ver, não sei se é porquê, vira e mexe, eu estou segurando em alguém e então não quero sujar as boas almas que se apresentam em meu caminho, fato é que todo mundo que já conviveu comigo sabe que o guardanapo é um dos meus melhores amigos. Ah, sei lá, vai ver que tudo isso é frescura mesmo.

 

por Marcos Lima

 

Para ler os demais episódios de Histórias de Cego clique aqui

 

* Se você quiser ser informado das atualizações do Histórias de Cego, basta enviar e-mail para mlacevicius@gmail.com

Bengaladas:

 

* queria parabenizar a Urece que obteve o segundo lugar no Shell Iniciativa Jovem, que cora um trabalho que a gente já vem desenvolvendo de 2005, caindo e levantando, mas sempre sem enxergar obstáculos.

 

* Recomentários:

 

– Janete e Fernanda Maria, a Tartaruga Né agradece aos elogios, se bem que ela, após a publicação do artigo, se meteu numa caixa pouco maior que ela própria e de lá só saiu despejada, quando tivemos que jogar sua casinha improvisada fora no final de semana.

 

– Renata Collier, Tartaruga Né está disponível para ser conhecida. O duro vai ser convencê-la a interagir…

 

– Mariana Mello, que bom que desde pequeno o Gabriel vai entendendo que os cegos são gente igual a todas as outras gentes. As portas estão abertas para quando ele quiser conhecer Tartaruga Né.

 

– Thiago Moura, boa pergunta! Vovó Pocotó é o apelido da minha avó. Explico: ela se chama Elza e, numa excursão da terceira idade que ela foi há alguns anos, puseram-na o singelo apelido de Elzinha. Estávamos no ano em que MC Serginho e a falecida Lacraia  nos apresentou A Eguinha Pocotó. Eguinha, Elzinha… Daí ficou Elzinha Pocotó. Lógico que ela resistiu; e se não tivesse sido assim, o apelido tinha morrido no mesmo dia. Mas, no meu casamento, a música que ela mais dançou foi justamente Eguinha Pocotó, feliz da vida!

 

– Clara, que bom que você gostou das dez melhores coisas de ser cego. Hoje, inclusive, me dei conta de mais uma, ao não ver o gato morto atropelado que jazia em frente ao meu trabalho;

5 Comentários

  1. Janete disse:

    Você é incrível, mesmo. E quanto a mim, não precisa convencer de que tem milhões de percepções e talentos a mais que um vidente. Eu tenho visão, mas te doaria parte dela em troca de alguns neurônios. Inteligência faz muito, mais muuuuuuuuuuuuuuuuuito mais falta…Snif !

  2. João Pedro disse:

    Parabéns novamente Marcos, seus texos são cada vez melhores!

  3. […] arenas , fui compreendendo o que explicação nenhuma no mundo me faria entender. Nada como ver com os próprios dedos! É, como dizem vocês, às vezes uma imagem vale mesmo por mil […]

  4. Clarissa disse:

    Olá Marcos! Meu nome é Clarissa e sou professora no Instituto de Cegos da minha cidade. Descobri as suas Histórias de Cego e estou adorando, mas este texto me encantou. Em cada parágrafo fui lembrando dos alunos que tenho e tive em três anos de educação especial. Quando você escreveu que para quem enxerga aprender Braille é fácil, mas ler com os dedos só para os cegos lembrei de um senhor, aluno da reabilitação que tive, ele aprendeu a escrever o Braille em pouco mais de um mês, mas não consegui ler, dizia: “Professora isso é muito pequeno e meu dedo muito grosso, meu dedo pega umas três letras de uma vez”, foi uma das minhas maiores felicidades quando ele saiu da escola lendo e escrevendo para dar continuidade aos seus estudos, já que pela falta de apoio do governo a escola tem apenas o ensino infantil, fundamental e reabilitação. Eu de tanto contato com o Braille aprendi a ler com o dedo, mas não consigo ler tudo só se tiver espaço entre as linhas e o texto for só de um lado da folha, me sinto como meus alunos da alfabetização. As crianças me ensinam muito uma vez um aluno cego com 6 anos de idade agachou no meio da sala e quando pedi para ele voltar ao seu lugar ele disse: “Eu estou escondido como você sabe onde eu estou?” outra vez conversando com as crianças sobre o passeio que fizemos em um parque que dispõe de fazenda e zoológico um deles comentou: “Eu não gostei porque eu queria ter pegado na onça.” Eles me colocam em cada uma! Kkk Li que você foi aluno do IBC fiquei curiosa a respeito de como foi a sua vida escolar. Como foi a sua alfabetização? Gostava de Matemática, Ciências e Geografia? Os meus alunos cegos totais sempre preferem Português e História. Alguns pequenos tem nojo de tinta, pelúcia, coisas moles e um tinha medo de bolas de encher. Há uns 5 anos, mais ou menos, se fala em acabar com as escolas especiais e incluir os alunos desde cedo nas escolas regulares. Qual é a sua opinião? Com relação ao guarda-chuva você não prefere uma capa de chuva?

  5. […] arenas , fui compreendendo o que explicação nenhuma no mundo me faria entender. Nada como ver com os próprios dedos! É, como dizem vocês, às vezes uma imagem vale mesmo por mil […]

Deixe uma resposta para Histórias de Cego 15 – Blind Friday Cancelar resposta

Curta vocë também a Urece no Facebook!