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Histórias de Cego 12 – Vida e Obra de Tartaruga Né

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A primeira coisa que aprendi com Tartaruga Né é que achar que esses répteis são apenas lentos e desajeitados é o mesmo que a gente que pensa que cego é incapaz de ter uma vida independente. Em uma palavra, preconceito. Posta em um novo ambiente, o bicho só sossega depois de explorar cada cantinho. Num dia em que, sem dar por ela, meu pé foi de encontro ao seu casco, fazendo-a rodar, tão logo recuperou-se do looping forçado, ela desandou a correr, percorrendo um espaço de três metros em menos de dois segundos, com um tremendo barulho de seu casco contra o chão, indo diretamente ao mais recôndito rincão sob a cama da minha avó.

 

Daí que, para evitar chutar o bichinho longe, é que eu fiz questão de que o piso do apartamento novo fosse de madeira; por isso e para agradar a esposa, que queria um piso de não sei que tipo com não sei qual cor (um dia eu escrevo sobre cego e reformas). Assim, nos raros momentos em que Tartaruga Né se movimenta, suas unhas em atrito com o chão produzem um ruído que me permite saber  a sua localização, sem ter de pisa-la . Melhor isso do que, como me sugeriram alguns, fazer um furinho no casco dela e pendurar alguma espécie de guizo.

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Mas a decoração tartarugal não limitou-se ao piso. Com experiência de muitos meses a viver em uma casa com inumeráveis escondites, quando nos mudamos fizemos questão que os móveis não tivessem espaço entre eles e o chão, não apenas para impedir o acúmulo de poeira, o principal propósito era mesmo evitar passarmos horas e horas caçando Tartaruga Né, que sem mais nem menos decidia se esconder em recantos tão isolados, que numa determinada ocasião, depois de revirar a casa por três horas, me dei por vencido e declarei pesaroso: Tartaruga Né fugiu. Mesmo para um cego, isso é uma vergonha! E olha que, mesmo não enxergando, eu havia procurado muito bem, utilizando a ponta de um longo guarda-chuva para vasculhar cada recanto. No dia seguinte, descobrimos o bicho debaixo da geladeira, beeem lá no fundo junto à parede, num lugar tão inacessível, que foi necessária toda uma logística para resgatá-la. E até tartaruga aprendeu, porque ela nunca mais voltou lá.

 

Mas este bichinho, cuja aparente lentidão faz com que muitos a tomem erroneamente por tonta, não tem por exclusividade enganar só os cegos. Logo após à mudança, por exemplo, minha esposa depois de recolher numa sacola plástica uma caixa vazia destinada ao lixo, sentiu um peso incomum ao erguer o embrulho. Sorte que, antes de abrir a lixeira, ela olhou para o interior do saco e encontrou, toda serelepe, um certo réptil comedor de queijo.

 

É, queijo mesmo, minas ou mussarela, que ela come só quando está dentro d’água. Alface? Tentei por diversas vezes, apenas para assisti-la empurrar as folhas para longe de si, como se tivesse nojo da oferenda. Resultados não muito distintos obtive com pedacinhos de maçãs, peras, melancias, broto de feijão, tomate e até com umas bolinhas biscoitais crocantes em cujo rótulo os fabricantes fizeram imprimir (obviamente não em Braille) “própria para tartarugas”, esquecendo-se de combinar antes com Bichinho Né. Ah, como eu sei que eram crocantes? Porque, para não desperdiçar totalmente o investimento, comi uma das bolinhas, apenas para descobrir um gosto bem ruim de peixe velho.

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E antes que me crucifiquem, a dieta à base de queijo (e não a venham com qualquer queijo) e carne crua já fazia parte das especificidades do bichinho quando eu o recebi de presente há mais de dois anos; herança dos 30 anos em que ela viveu na casa de sua primeira família que, tendo vendido o terreno para que fosse erguido um prédio, doou a então tartaruga sem nome para uma vizinha que dizia que o sonho do filho era ter uma tartaruga. É, a minha mãe adivinhou, até melhor do que eu; ainda que eu gostasse desses bichos casquentos, nunca realmente tinha imaginado ter um em casa, pelo menos até aquele 26 de julho quando, apesar da imensa contrariedade da minha avó – e talvez ainda mais incentivado por isso – eu decidi levá-la para viver conosco. Na época com 83 anos, a minha avó não queria que sua rotina fosse alterada por um bichinho, ainda mais um tão estranho e “com cabeça de cobra”, como ela insistia. Minha irmã logo se colocou no partido antitartarugal, proclamando que “se nunca me deixaram ter um cachorro, você também não pode ter uma tartaruga”.

 

Foi sob esse clima de desconfiança que Tartaruga Né ingressou na minha residência de solteiro. Minha avó, a princípio ressabiada, não demorou a notar nos hábitos daquele bichinho sossegado, com passinhos miúdos tão parecidos aos dela mesma, tanto assim que eu sempre quis promover uma corrida entre minha avó e a tartaruga. Pena que não deu tempo, ainda. Elas se enturmaram tanto, que pela minha mãe o bichinho se chamaria Tael, iniciais de Tartaruga e de Elza, o nome da avó. Mas o nome acabou ficando mesmo Tartaruga Né, por conta de uma propaganda da época da Copa do Mundo de 2002, com uma musiquinha que ficava repetindo “tartaruga né, tartaruga né”, por mais que a minha avó reclamasse, “Mas Tartaruga ela é desde que nasceu”.

 

Com aversão em pegar o corpinho molengo de Tartaruga Né, a boa velhinha logo encontrou uma solução para colocá-la na água quando eu não estava em casa: a empurrava vagarosamente com os pés, através dos cômodos , até a varanda onde, quando chegava, inclinava a bacia vazia e, com um esforço final, sempre com o pé, acomodava Bichinho ali dentro. E depois ia enchendo a bacia com o conteúdo de sucessivos copos de água, num ir e vir que certamente valia por uma caminhada dessas recomendada pelos doutores. Um dia, chegando eu do trabalho, surpreendi a Vovó Pocotó conversando com Tartaruga Né: “Seu dono diz que o seu casco é muito pesado para você, mas você está acostumada, não é mesmo?”

 

Trata-se de  um bicho muito limpinho; faz todas as suas necessidades dentro d’água, exceto, claro, no dia em que voltamos do aeroporto com nossas duas amigas gringas que hospedaríamos por duas semanas e encontramos a casa toda tracejada. Sim,porque a vida de Tartaruga Né é basicamente a preguiça eterna. Deitada, recolhida ao claustro de seu casco ou com as extremidades incrivelmente esticadas, ela pode passar semanas e até meses completamente imóvel, principalmente no inverno, a ponto de alguns visitantes jurarem que ela morreu e nós é que não percebemos. E tartarugas lá morrem! Nesse ritmo, Bichinho vai viver muito mais que eu e minha esposa juntos.

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Mas não se deixem enganar pela aparência tranquila e preguiçosa desse réptil trintão. Quando quer algo, Tartaruga Né sabe-se fazer ouvir. Tendo se dado conta de que é no boxe que a colocamos em sua bacia para banhar-se, ela periodicamente percorre a casa, entra no banheiro e fica olhando fixamente para a porta do blindex à espera de ter seus desejos atendidos. Quando ela se cansa da água, todavia, seus métodos são mais diretos. Ela simplesmente utiliza suas patas para apoiar-se na borda da bacia e deslizar para o chão do boxe. Escala então, com uma destreza assombrosa, o degrau do blindex, cuja altura lhe ultrapassa em alguns centímetros. Na malfadada ocasião em que esta manobra terminou com ela de casco pra baixo e de patas para o ar, alarmando a mim e a minha esposa, o tempo de corrermos até o banheiro foi o que ela utilizou para, pressionando sua cabeça contra o chão à moda de alavanca, virar-se no ar, voltando para a sua posição original.

 

E se a primeira coisa que aprendi com Tartaruga Né foi que ela pode ser muito rápida quando quer ou precisa, seu maior ensinamento a todos que a veem é sua comovente tenacidade. O bicho simplesmente não desiste. Cisma ela com uma coisa e não há quem a demova de fazê-lo, ou ao menos de tentar; se ela acha que tem que escalar uma parede, ela apóia as duas patas traseiras no chão e pondo-se quase na vertical, fica forçando seu corpo contra o obstáculo, o que invariavelmente provoca sua queda. Nada que abale sua persistência; ela imediatamente se põe na mesmíssima posição e fica ali, por infindáveis minutos, tentando e tentando escalar uma parede. Ainda que ela não tenha lá muito futuro como alpinista, foi empregando esse método que ela já conseguiu abrir em algumas ocasiões portas de correr, como a da varanda do apartamento onde morava, se esgueirando posteriormente pela pequena fresta resultante do deslocamento inicialmente provocado e forçando passagem com seu casco.

 

Ou seja, mesmo tartarugas, lá embaixo no Ranking Fifa dos pets preferidos, são capazes de mostrar a cada dia que nem sempre a primeira impressão é a que fica. Bichos lentos, preguiçosos e totalmente desprovidos de interesse? É, esse negócio de preconceito não tá com nada mesmo, até quando o assunto é tartaruga, Né?

 

por Marcos Lima

 

P.S.: Parece que Tartaruga Né sentiu a pressão da estreia no mundo virtual: só nos últimos dias ela já fez cocô no chão da casa umas três vezes!

 

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 Bengaladas:

* E vocês já ouviram falar em Tartaruga Paralímpica?

 

* Vocês sabiam que na Suécia existe um treinador de futebol cego? Vejam só o que os demais jogadores aprontaram para ele.

* Recomentários:

 

– Eduardo, entre o Paulino Werneck da Silva e os dois ladrão, eu talvez prefira o primeiro, não apenas porque não vivi o segundo caso e por isso mesmo nem imagine o medo que o Júlio pode ter passado, mas porque, quando o Paulino me abordou, eu bem ou mal estava no metrô, cheio de gente em volta. Tudo bem que ninguém interveio, mas estavam lá. Fora que o Paulino, ao menos, era um só;

 

– Janete e Gabriela Nóra, escrever um livro? Bem, outras pessoas já me disseram isso, mas penso que o blog ainda tem que adquirir mais textos e mais notoriedade para tal. Ainda assim, se alguma editora quiser cometer a insanidade de me publicar e eu ainda por cima puder ajudar a Urece, por que não?

 

– Emerson Sanders, é… Não dá pra saber mesmo o que os caras tinham em mente ou se foi a resposta do meu amigo quem os demoveu de qualquer ação, mas a história é mais um exemplo de que pré-julgar os demais é um erro tremendo. Como o leitor José Américo disse, dessa vez a ocasião não fez o ladrão;

 

– Gabriella Zubelli, fico muito feliz quando vejo que as pessoas passam a entender melhor as percepções de um cego através dos textos, porque é exatamente esse o objetivo do blog. Quando você me diz que passou a observar o piso tátil no metrô, esta é uma vitória, porque significa que consegui passar a mensagem adiante;

 

– Thaís e João Pedro, obrigado pelos elogios ao blog. A história anterior mostra que não sou só eu quem passo por apertos. Aliás, convido os leitores a enviarem seus depoimentos, devem haver causos muito mais interessantes que os meus escondidos por aí.

 

– Tamara, engraçada? Pergunta pro Júlio pra ver se ele não ficou com um medo incrível!!! Risos.

11 Comentários

  1. Fernanda Maria disse:

    Muito linda esta historia,adorei o texto e a sua tartaruga .

  2. Renata Collier disse:

    Amei o texto Marcos!! Um dia quero conhecer a tartaruga Né! 🙂

  3. Mariana Vieira de Mello disse:

    A melhor parte foi a comparação com a Vovó Né! Marcos, estava lendo seu post quando Gabriel se aproximou e viu a foto da Tartaruga Né. Mamãe, que tartaruga é essa? É do Marcos filho. O Marcos que enxerga com as mãozinhas? Ele mesmo. Porque ela ta nessa piscina? Ta tomando banho! Mas ela quer sair e o Marcos não está vendo ela com as mãozinhas!!! kkkkk

  4. Thiago Moura disse:

    Muito bom o texto mas o que que é Vovó Pocotó?

  5. João Pedro disse:

    O pior é que a tartaruga da minha avó já fugiu, no meio de obras a porta da casa ficou aberta e ela fugiu, quando deram conta algum transeunte provavelmente já deveria ter sequestrado a coitada…

  6. […] todos os erros que possa ter cometido, ao menos me isento de um: escrevi sobre  Tartaruga Né  enquanto ela ainda caminhava pela casa se comunicando mudamente com nós dois, indo para a porta […]

  7. […] todos os erros que possa ter cometido, ao menos me isento de um: escrevi sobre  Tartaruga Né  enquanto ela ainda caminhava pela casa se comunicando mudamente com nós dois, indo para a porta […]

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