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Histórias de Cego 11 – De onde menos se espera

A história de hoje mostra um pouco do que eu uma vez disse sobre o quanto nós deficientes visuais estamos vulneráveis nas ruas. E não é apenas pela falta de acessibilidade ou pelas milhares de coisas que encontramos nas calçadas. Me refiro ao fato de dependermos de ajuda de outras pessoas para atravessarmos a rua, pegarmos ônibus, desviar de poças, etc, que acaba nos fazendo passar por muitas situações que quem enxerga e segue seu caminho muitas vezes sem nem ao menos olhar para a frente, nem sequer imagina. E  leitor Júlio Ribeiro, músico de mão cheia, nos contou um episódio que exemplifica bem isso.

 

Uma vez, era de madrugada e eu precisava voltar do Rio pra Niterói. Devido ao avançar da hora, a rodoviária Novo Rio estava bem deserta e silenciosa. Se durante o dia aquilo lá costuma ser perigoso, imagina na calada da noite!

 

Parei sozinho na beira da calçada e me preparava para atravessar a rua quando um sujeito chegou falando algo do tipo:

– Aê, mermão, tu qué uma ajuda?

A voz não era muito amistosa, uma coisa meio débil mental, mas ao mesmo tempo intimidadora. Mas um cego, num lugar ermo como aquele, no meio da madrugada, não pode se dar ao luxo de recusar auxílio. Eu queria e precisava de ajuda e por isso aceitei. Falei pra onde eu estava indo e segurei no braço do sujeito, que foi me conduzindo e fazendo mil perguntas. Percebi que ele estava sem camisa, e caminhava arrastado, cheio de marra, dono do pedaço. Fui ficando meio bolado, mais ainda quando percebi a presença de outra pessoa nos acompanhando de perto, do meu outro lado, como a me escoltar. Pensei: “Já era”!

 

Fiquei bem atento observando se o caminho por onde ele me levava era realmente o que daria na passarela, como se eu pudesse fazer efetivamente alguma coisa caso ele estivesse me levando na direção errada. Eu queria pegar o ônibus pra Niterói e me mandar dali o mais rápido possível, mas, naquele momento, eu não era exatamente o senhor das minhas decisões.

 

A eminência parda ou segunda presença, como queiram chamar a pessoa ao lado oposto ao do guia, fazia questão de ficar em silêncio, ou então era muda! E eu seguia, calado, preso às minhas conjecturas e aos meus estranhos acompanhantes. Me encontrava (ou não) completamente à mercê daquela situação, estava nas mãos daquele sujeito de voz de monstro e não tinha pra onde fugir!

 

A uma certa altura, quando eu imaginava que já estávamos quase chegando ao ponto de ônibus, meu guia perguntou:

– Aê, tu sabe quem ta te guiando?

– Pô, não sei não. Respondi tentando transparecer calma.

– Dois ladrão.

 

Pronto, tudo explicado! Eu não tinha muita coisa pra eles levarem, e desde que me deixassem com a bengala já saía quase que no lucro. Nem sei se realmente eles queriam me levar algo. Só sei que respondi imediatamente:

– Pô, show de bola! To me sentindo bem protegido então.

Não sei de onde tirei tanto sangue frio e presença de espírito para responder isso, e nem temos como dizer se na verdade minha reação amistosa teria mudado o rumo da intenção dos caras.

 

O que aconteceu depois? Os dois ladrão esperaram o ônibus comigo, me despacharam e ainda me recomendaram que fosse com Deus e que me cuidasse. Voltei pra casa aliviado, pensando que talvez esses caras só estivessem esperando um voto de confiança, talvez só precisassem ajudar um ceguinho pra experimentarem, ou relembrarem, de suas virtudes, seus lados bons. Ou talvez estivessem mesmo afim de pegar mais um… Vai saber! Eu é que não dou mais mole por aquelas bandas de madrugada.

 

por Marcos Lima

 

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* Recomentários:

 

Recorde absoluto de comentários na última postagem. Obrigado a todos que deixaram suas mensagens.

 

– Mariana Gomes: é, parece então que as vantagens de ser cego se refletem em outras pessoas. E eu que jamais poderia imaginar que teu nariz pudesse se assemelhar a uma bola de tênis! Imagina eu tentando imaginar isso!

 

– Ana Lembo: pelo visto você curtiu várias das vantagens de ser cego, né? E aí eu te pergunto: quer trocar comigo? risos.

 

– Jocemar Júnior: que seria do mundo sem as reuniões desnecessárias? E sem as nossas maneiras de tentar passar o tempo? O que eu nunca tentei foi juntar a 8 com a 7 e dormir numa reunião sem ser notado, mesmo porque acho que a minha chefe lê esse blog;

 

– Mariana Mello e Juliana Bezerra: vocês misturaram duas vantagens, risos: o monitor desligado é uma coisa e o poder dormir sem que os olhos fechados chamem a atenção é outra. Portanto, continuo liberado para deixar o monitor desligado e poupar um pouquinho mais a energia do nosso querido planeta Terra, não? Um dia conto porquê deixo o monitor desligado. Garanto que não é pra entrar no Facebook às escondidas que eu nem tenho perfil por lá.

 

– Allan: cego mesmo é aquele que torce para o seu time e finge que não vê as múltiplas beneficiarias de juízes, regulamentos, tribunais que vocês (e outros mais) recebem a cada campeonato. Ser botafoguense não é pra qualquer um, porque a gente não escolhe, somos escolhidos;

 

– Eduardo: a vantagem de ser cego em relação às comidas é que você não deixa de comer aquelas que são visualmente feias. Mas agora, a melancia que você citou – e a banana, principalmente – podem ser lindas ou o que for, mas têm um cheiro que me enjoa na hora.

 

– Tatiana Brauer e Carlos Leitão: Espero que esse texto os incentive a parar de ter nojinhos visuais. Provem uma linguinha de boi ou uma rabada com agrião e batata. Vão ver que delícia é!

 

– Fernanda Camerini: ganhou o dia? Que bom saber que os textos deste blog podem ter esse peso!

 

– Agradeço aqueles que como a Renata Sanches, o José Américo, o Luciano Videira escreveram apenas para elogiar o texto. É das mensagens de vocês que vem a força para escrever uma história nova a cada semana.

14 Comentários

  1. Emerson Sanders disse:

    Muito boa essa história, Marcos. Fiquei apreensivo apenas em ler o causo, imagina quem passou pela situação. Nossa. Melhor mesmo só o desfecho, que nos faz dar mais um voto de esperança para a humanidade.

  2. Janete disse:

    Você precisa transformar estas histórias em livro. Você é muito bom. Mas, pelo jeito, depois da história do mar e agora dessa, já sei que preciso tomar calmantes antes de lê-las. Você é quem passa apuro e eu é que fico apavorada do lado de cá… Valha me Deus !

  3. Thais disse:

    Opa! Essa é inédita pra mim!! E contada de forma sensacional como todas as outras! Parabéns!

  4. Gabriella Zubelli disse:

    Agora é assim: a hora que recebo que tem um post novo, quero logo ler! Cada vez aprendo mais um pouquinho sobre as diferentes percepções de mundo.

    Sobre o post do patinho feio, fiquei motivada a “usar” o espaço de piso tátil como área reservada de embarque em uma estação, observando se coincidiria com a área de desembarque da outra estação: sorte ou não, deu certo! E agora comecei a fazer esse “exercício” algumas vezes (quando a lotação permite!) e já localizei algumas estações que essa área de embarque leva a nenhum vagão!

  5. João Pedro disse:

    Muito Bom Marcos!
    Realmente os cegos devem passar por cada história, só você mesmo pra passar tudo isso pra gente. Seus leitores agradecem!

  6. José Américo disse:

    Po,precisamos estar sensíveis e atentos ao nosso redor,e muitas vezes,a ocasião nao gaz o ladrão.

  7. Tamara disse:

    Adoreeeeeei, muito legal essa e engraçada também !! Li ansiosamente para saber o final !! Rs !

  8. Eduardo disse:

    Entre ladrões assumidos e o Paulino Werneck da Silva, quem você escolhe?

  9. Gabriela Nora disse:

    Faço coro com a Janete, Marcos: voce precisa transformar essas historias em livro! Os seus leitores agradecem.

  10. […] Eduardo, entre o Paulino Werneck da Silva e os dois ladrão, eu talvez prefira o primeiro, não apenas porque não vivi o segundo caso e por isso mesmo nem […]

  11. Helio Silva disse:

    Comecei a ler tuas “facetas” hoje. Como tudo começou em 2013, ainda tenho muita coisa para ler. Amanhã vou continuar aprendendo tuas lições. Você tem uma forma muito especial, otimista e engraçada, de nos passar um pouco sobre como é a vida de um deficiente visual.

  12. […] Eduardo, entre o Paulino Werneck da Silva e os dois ladrão, eu talvez prefira o primeiro, não apenas porque não vivi o segundo caso e por isso mesmo nem […]

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