Futebol para Cegos

Futebol para Cegos

Lucas Rodriguez com a bolaO futebol é o esporte mais popular do planeta. Seu caráter igualitário permitiu que ele se expandisse pelo mundo todo, de modo que hoje em dia a FIFA possui mais membros afiliados do que a própria ONU. E é natural que por ser avassalador e apaixonante atinja também as pessoas que por definição e preconceito sempre estiveram alijadas do jogo: os deficientes. Desde cedo eles foram à procura de um modo que lhes permitisse praticar o futebol.

O futebol de cegos é baseado no futebol de salão ou futsal. São quatro jogadores na linha e um goleiro. No entanto, para que os deficientes visuais pudessem praticar o esporte com emoção, desenvoltura e segurança, muitas adaptações foram sendo desenvolvidas e implementadas com o passar dos anos. Assim surgiu a modalidade que hoje conhecemos como futebol de 5 (ou, em inglês, o five-a-side football). Praticado em mais de trinta países nos cinco continentes, o futebol para cegos teve sua estréia nas Paraolimpíadas em Atenas (2004), o que fez com que o esporte e seus atletas fossem pela primeira vez reconhecidos em seus países. A vitória do Brasil (a primeira medalha de ouro que o nosso futebol ganhou em Olimpíadas), reafirmou o papel do nosso país como potência também no futebol adaptado. Atualmente, são mais de cinqüenta equipes representando a quase totalidade dos estados da federação.

Embora não haja uma história oficial, acredita-se que a prática do futebol entre pessoas portadoras de deficiência visual tenha começado na década de 20, nos pátios das instituições especializadas. No entanto, os praticantes enfrentavam grandes dificuldades, pois as adaptações que hoje em dia conhecemos ainda não haviam sido concebidas. Apesar deste começo arcaico, o esporte demonstrou ser bastante atrativo para os cegos, em virtude principalmente de o fenômeno futebol ser algo bastante enraizado na cultura de muitos países. No início, o futebol adaptado era um grande desafio para aqueles que o praticavam. Sem o material especializado que se encontra hoje em dia, improviso era a palavra de ordem. Não importava o tamanho da bola ou o material de que era produzida, já que para esses pioneiros o importante era conseguir uma maneira de escutá-la, marcar gols e se divertir.O futebol para cegos cresceu condicionado a pouca importância que os institutos especializados destinavam ao esporte. Havia ainda o problema de o jogo ser praticado em grandes espaços abertos. Assim, o jogo se diluía em virtude da dificuldade de orientação dos atletas. Desse modo, ficou claro que sem algumas mudanças o ritmo da partida seria quebrado.

Por causa desses obstáculos – e tendo ainda em vista a preocupação com a segurança dos praticantes – optou-se pelo futebol de salão. O cenário do jogo passou a ser uma quadra que, com as devidas adaptações, trouxe mais dinamismo ao esporte, em virtude de suas dimensões reduzidas. A bola também passou por uma série de evoluções. No início, era comum que os deficientes visuais utilizassem garrafas plásticas com pedrinhas dentro, até que se percebeu que uma bola comum envolta em um saco plástico fazia barulho em seu deslocamento e permitia uma maior mobilidade dos jogadores. No entanto, esta técnica esbarrava na falta de durabilidade das sacolas.Foram feitas tentativas mais ousadas, como prender os guizos fora da bola, o quê naturalmente não deu muito certo. A bola que hoje em dia é utilizada (e que é produzida no Brasil) foi concebida na década de 80 e ainda está em processo de evolução. Em 1986, na Espanha – um dos países em que os direitos dos deficientes são mais respeitados – realizou-se o primeiro campeonato entre clubes. Levou quase uma década para que se estabelecessem competições entre seleções. Atualmente, mais de 30 países aderiram ao five a-side football, sendo que na maioria deles existem campeonatos regulares entre clubes.

Desde 1997 são realizados periodicamente Campeonatos Mundiais da Modalidade. Em 2004, o futebol para cegos estreou nas Paraolimpíadas. No Brasil, a CBDV – Confederação Brasileira de Desportos para pessoas com deficiência visual – é responsável pela organização e realização dos torneios entre clubes. Por ano, disputam-se pelo menos duas competições de caráter oficial: os Campeonatos Regionais e os Brasileiros, da primeira e segunda divisões.

Principais Adaptações:

O futebol de 5 é praticado em quadra e com regras do futebol de salão. A única modificação espacial necessária é o que se chama de banda lateral, um conjunto de compensados de madeira de um metro e meio de altura que percorre toda a lateral da quadra. Dessa maneira, a bola só sai de jogo na linha de fundo, o quê dá ao esporte um dinamismo muito maior. Os goleiros enxergam normalmente (videntes). Mas, para evitar que influam demasiadamente na dinâmica da partida, eles têm sua área de atuação restrita a uma pequena zona retangular de 2 por5 metros, próxima ao gol. Além disso, um guia (chamador), posicionado atrás do gol adversário, orienta os jogadores de ataque de sua equipe. Vale ressaltar que os atletas que praticam esta modalidade, a exceção do goleiro e  do chamador, são completamente cegos, inseridos na categoria B1(Blind One, isto é, que possuem grau de visão muito próximo ou igual a 0%). Para evitar que haja disparidade entre os atletas provocada por possíveis resíduos visuais, a regra os obriga a utilizarem o Tampão Oftalmológico, recoberto por uma venda.

No entanto, o elemento mais curioso que envolve o esporte é a bola, especialmente produzida para o futebol de cegos. Ela tem a superfície recoberta por gomos dentro dos quais são acondicionados e costurados guizos de ferro. Quando a bola está em movimento, esses guizos balançam no seu interior e o som produzido orienta os atletas. Todas essas adaptações visam aproximar o futebol praticado pelos cegos daquele que é mundialmente conhecido. Com regulamento polido e elaborado, o five a-side football não é um esporte perigoso, ao contrário do que muitas pessoas imaginam. Esta é uma ideia que se dissipa rapidamente quando se presencia uma partida disputada com supervisão e estrutura adequadas. Existem choques, mas não mais que em uma partida de futebol entre videntes. A de se levar em conta que são oito jogadores completamente cegos disputando a posse de uma única bola, de modo que o contato com o rival, além de inevitável, faz parte da própria dinâmica do jogo.

Regras:

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Futebol para Cegos na Urece:

Na Urece, os responsáveis pelo futebol de cinco são Gabriel Mayr e Fausto Penello. Gabriel trabalha com deficientes visuais há mais de dez anos. Ele é Bacharelem Educação Física pela UFRJ, Técnico em Orientação e Mobilidade formado pelo Instituto Benjamin Constant. Teve uma passagem pela seleção inglesa da modalidade, no período de um ano em que trabalhou no Royal National College for the Blind, o maior e melhor colégio para cegos do Reino Unido. Em 2008, formou–se mestre pela Universidade Católica de Leuven (Bélgica), especializando-se em desporto adaptado. Trabalhou na implementação do futebol para cegos na República Tcheca e Alemanha, além de ser um dos grandes entusiastas do futebol para mulheres cegas do mundo.

Fausto Penello é Bacharelem Educação Físicapela UFRJ e trabalhou por quatro anos com as equipes do Instituto Benjamin Constant, dando aula também para a equipe infantil. TEve várias passagens pela seleção brasileira da modalidade, incluindo diversos períodos de treinamento visando as Paraolimpíadas de Beigin, nas quais o Brasil sagrou-se campeão.

Tendo em seu presidente Anderson Dias, o atleta campeão paraolímpico no futebol de 5 em Atenas 2004, o caminho natural da Urece era criar uma equipe de futebol. Os Tigres de Bengala estrearam em competições oficiais em fevereiro de 2008, na Série B da Copa Brasil, disputada no Rio de Janeiro. Apesar dos desfalques (dentre os quais, o de Anderson foi o mais sentido), os meninos da Urece conquistaram o vice-campeonato, suficiente para classificar a equipe para a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O artilheiro da equipe na competição foi o centroavante Abel Ricardo.

No Campeonato Brasileiro daquele ano, a equipe sofreu muito com lesões e terminou a disputa em oitavo lugar (de doze competidores). Um ano depois, o time conseguiu o sétimo lugar, nem competição que aconteceuem Ilha Solteira(SP). Em2010 anovidade foi o argentino Lucas Rodríguez, trazido para disputar a competição pela equipe da Urece. No entanto, a equipe não resistiu à primeira fase e disputou o quadrangular contra o rebaixamento, terminando a competição na décima posição (de doze competidores), garantindo a permanência na elite do futebol para cegos.

Em 2011, com dois reforços estrangeiros (os paraguaios Ricardo Villamayor e Hugo Lezcanos), a equipe superou a primeira fase, mas parou nas quartas de finais, sendo eliminada nos pênaltis e terminando a disputa com a sexta posição.